Destaque da produção científica do IFSC/USP em agosto de 2026

Para ter acesso às atualizações da Produção Científica cadastradas no mês de agosto de 2026, clique AQUI, ou acesse o Repositório da Produção USP (AQUI) As atualizações também podem ser conferidas no Totem “Conecta Biblio”, em frente à Biblioteca. A figura ilustrativa foi extraída do artigo publicado recentemente, por pesquisador do IFSC/USP, no periódico “Biosensors and Bioelectronics” […]

Destaque da produção científica do IFSC/USP em agosto de 2026

Para ter acesso às atualizações da Produção Científica cadastradas no mês de agosto de 2026, clique AQUI, ou acesse o Repositório da Produção USP (AQUI) As atualizações também podem ser conferidas no Totem “Conecta Biblio”, em frente à Biblioteca. A figura ilustrativa foi extraída do artigo publicado recentemente, por pesquisador do IFSC/USP, no periódico “Biosensors and Bioelectronics” […]

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“Da paixão pela Física ao compromisso com a pesquisa e ensino: vale a pena conferir a trajetória do Prof. Victor Luiz Quito” – A nova geração de docentes do IFSC/USP

Para Victor Quito, o conhecimento adquirido ao longo de uma carreira científica ganha um significado especial quando é compartilhado com os alunos

“Depois de sete anos de experiência em pesquisa nos Estados Unidos, físico retornou ao Brasil para integrar o Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), onde encontrou na sala de aula e na formação dos estudantes novos desafios, complementando aspectos de sua carreira”

A trajetória do Prof. Victor Luiz Quito, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), poderia ser contada a partir de sua formação acadêmica, das pesquisas que desenvolve ou dos sete anos que passou nos Estados Unidos. Mas, há outro aspecto que ajuda a compreender sua história: a convicção de que o conhecimento adquirido ao longo de uma carreira científica ganha um significado especial quando é compartilhado com os estudantes.

Aos 38 anos, nascido e criado em Valinhos, interior de São Paulo, Quito descobriu ainda no ensino médio que a Física poderia definir seu futuro. O primeiro contato mais sistemático com mecânica, eletricidade, eletromagnetismo e termodinâmica despertou uma curiosidade que não desapareceria. Mesmo diante de um ensino predominantemente teórico e com pouco acesso a laboratórios, percebeu que gostava não apenas dos conteúdos, mas principalmente da maneira de pensar proporcionada pela Física e pela Matemática.

A certeza começou a ganhar forma quando, no terceiro ano do ensino médio, participou durante cerca de duas semanas de uma escola avançada de física na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). A experiência permitiu que conhecesse de perto o ambiente universitário e tivesse contato com uma Física mais avançada, embora ainda num contexto inserido no ensino médio. Foi também nesse período que conheceu o Prof. Eduardo Miranda, que anos depois se tornaria seu orientador.

Aprovado no vestibular, ingressou no curso de Física da Unicamp. A adaptação ao ensino superior exigiu uma mudança importante. Já não bastava estudar para uma prova: era necessário adquirir disciplina, continuidade e uma nova forma de enfrentar conteúdos de maior complexidade. Para Quito, aprender a estudar física naquele nível foi um dos primeiros grandes desafios de sua formação.

Depois da graduação, seguiu diretamente para o doutorado na própria UNICAMP. Foi nessa etapa que São Carlos começou a aparecer em sua trajetória. Coorientado pelo Prof. José Abel Hoyos Neto, Victor Quito passou a visitar a cidade e participou também de uma Escola São Paulo de Ciência Avançada. A impressão deixada pelo ambiente científico local seria decisiva anos mais tarde: para o jovem pesquisador, São Carlos era um lugar vivo, onde havia entusiasmo para discutir e fazer física.

Sete anos nos Estados Unidos e a decisão de voltar

California Institute of Technology (Caltech)

A carreira ganhou dimensão internacional durante o doutorado, quando Quito passou um ano no California Institute of Technology (Caltech). Depois de concluir o doutorado, em 2016, seguiu para os Estados Unidos para realizar pós-doutorado. O que inicialmente seria uma etapa temporária acabou se transformando em sete anos vivendo no exterior.

“Essa permanência prolongada não estava planejada. Entre as razões estavam a continuidade da minha atividade profissional, a escassez de oportunidades para retornar ao Brasil em determinados períodos e, posteriormente, as dificuldades provocadas pela pandemia. Quando novas vagas começaram a surgir, entretanto, precisei fazer uma escolha: permanecer nos Estados Unidos ou regressar ao país. Foi aí que São Carlos voltou à minha memória”, recorda o jovem docente.

A experiência que tivera anteriormente na cidade, somada ao prestígio da Universidade de São Paulo, ao ambiente do IFSC/USP e à percepção de que ali encontraria condições para desenvolver sua carreira, pesou na decisão. Mesmo depois de tantos anos fora do Brasil, a possibilidade de ser professor em uma instituição como a USP continuava a atraí-lo.

Em 2023, retornou ao Brasil e iniciou uma nova fase de sua trajetória profissional no IFSC/USP.

Quando o pesquisador se torna professor

Foi na universidade que Quito passou a conhecer uma dimensão da profissão que a experiência exclusivamente voltada à pesquisa não revelava por completo. “Tornar-me professor significou assumir responsabilidades novas: preparar disciplinas, conduzir turmas numerosas, orientar estudantes de graduação e pós-graduação, desenvolver projetos científicos e participar também das atividades acadêmicas e administrativas da instituição”, sublinha Victor Quito.

Depois de anos dedicados à pesquisa, o docente descobriu que ensinar exige um aprendizado próprio. “Quando a gente olha de fora, não temos a noção exata do trabalho que é ser professor”, reconhece. Ainda assim, a experiência confirmou a escolha feita ao retornar ao Brasil. O ambiente encontrado no IFSC/USP permitiu que colocasse em prática ideias e construísse sua própria maneira de atuar como docente e pesquisador.

Entre todas as responsabilidades, uma das mais complexas está justamente na essência da educação “Compreender que os estudantes não são iguais”.

Um dos grandes objetivos do Prof. Victor Quito é contribuir para que aqueles que passam pela universidade possam prosperar nas decisões que tomarão ao longo da vida, independentemente do caminho profissional que escolherem

Para Quito, uma sala de aula reúne pessoas com experiências, dificuldades, habilidades e formas de compreensão diferentes. Em uma de suas disciplinas – Termodinâmica e Física Estatística – por exemplo, há aproximadamente 90 estudantes. Uma mesma explicação pode ser simples para alguns, difícil para outros e pouco adequada à maneira como determinados alunos compreendem o assunto.

É nesse ponto que aparece uma característica importante de sua concepção de professor: ensinar não termina quando a aula acaba.

Diante da impossibilidade de atender individualmente as necessidades de dezenas de estudantes durante uma única aula, Quito procura manter canais abertos para que os alunos possam procurá-lo posteriormente, pessoalmente ou por e-mail. A disposição para conversar, explicar novamente e compreender dificuldades individuais transforma-se, assim, numa parte importante do trabalho docente.

Formar pessoas para além da física

Sua preocupação não se limita a formar futuros pesquisadores. Ao pensar no impacto que pretende deixar no Instituto ao longo da carreira, Quito coloca os estudantes no centro dessa missão. “O objetivo é contribuir para que aqueles que passam pela universidade possam prosperar nas decisões que tomarão ao longo da vida, independentemente do caminho profissional escolhido. A física, nesse sentido, não representa apenas um conjunto de fórmulas, teorias e conhecimentos especializados. Ela proporciona uma maneira de raciocinar e de enfrentar problemas que pode ser utilizada em diferentes áreas”, pontua o docente.

“Não desperdicem esta oportunidade. Vai dar trabalho, mas vocês vão ser recompensados”

Essa perspectiva ajuda também a compreender por que o professor deseja que seus alunos avancem cada vez mais. O papel da universidade, em sua visão, é oferecer uma formação sólida e proporcionar condições para que cada estudante tenha liberdade e capacidade para escolher o próprio futuro.

Ao mesmo tempo, existe a responsabilidade de preservar e ampliar a excelência científica de uma instituição reconhecida nacional e internacionalmente pela pesquisa de ponta. Para Quito, ensino e pesquisa não aparecem como atividades separadas: “Formar bons estudantes significa também contribuir para a continuidade da qualidade científica construída pelo Instituto ao longo de sua história”, destaca o docente.

“Continuem a estudar – Não desistam”

Quando convidado a deixar uma mensagem aos estudantes, Quito retorna a uma palavra que atravessou sua própria trajetória desde os tempos de graduação – persistência.

As dificuldades, afirma, inevitavelmente aparecerão. O importante é continuar estudando e se esforçando para superá-las. E, nesse percurso, lembra, os estudantes não estão sozinhos: professores e colegas estão na universidade também para ajudá-los. “Não desperdicem esta oportunidade. Vai dar trabalho, mas você vai ser recompensado”, aconselha.

A recompensa à qual se refere não está apenas na obtenção de um diploma. Está na beleza das teorias que serão conhecidas, na compreensão da física e, principalmente, na formação intelectual proporcionada pelo estudo. A mensagem parece resumir também sua própria história.

Da curiosidade de um estudante de ensino médio, em Valinhos, à graduação e ao doutorado na UNICAMP; da experiência no Caltech aos sete anos de atividade acadêmica nos Estados Unidos; do retorno ao Brasil à responsabilidade de ensinar dezenas de estudantes em uma sala de aula, existe uma linha que atravessa a trajetória de Victor Luiz Quito: a educação como processo contínuo de aprendizado, esforço e transformação.

Hoje, como pesquisador da área de Física da Matéria Condensada, ele continua investigando fenômenos fundamentais da matéria e trabalhando com questões científicas que desafiam o conhecimento atual.

Mas, diante dos alunos, sua missão assume outra dimensão. O conhecimento acumulado ao longo de anos de formação e pesquisa passa a servir também para abrir caminhos para quem está começando.

É talvez aí que se encontre uma das dimensões mais significativas da profissão que escolheu: o cientista procura compreender o desconhecido; o professor trabalha para que outros tenham condições de ir ainda mais longe.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

“Honrar uma tradição não é reproduzir o passado, é manter viva a capacidade de construir o futuro” – Posse da nova diretoria do IFSC/USP

Perante o Secretário Geral da Universidade de São Paulo, Prof. Dr. Gustavo Ferraz de Campos Monaco, o novo diretor do IFSC/USP, Prof. Dr. Adriano Andricopulo assina termo de posse

Adriano Andricopulo e Luis Gustavo Marcassa assumem a direção do Instituto de Física de São Carlos com o compromisso de manter sua excelência e seu caráter inovador

Adriano Andricopulo e Luis Gustavo Marcassa tomaram posse nesta terça-feira, dia 1º de setembro, como os novos diretor e vice-diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC). A cerimônia foi realizada no Auditório Professor Sérgio Mascarenhas e reuniu dirigentes da Universidade, membros da comunidade do instituto, amigos e familiares.

“A trajetória do IFSC é marcada por construção, transformação e coragem. Começou com aqueles que, há mais de sete décadas, acreditaram que era possível construir em São Carlos um ambiente de ciência e formação de excelência. As gerações seguintes não se limitaram a conservar o que receberam, mas ampliaram, diversificaram, internacionalizaram, criando novas áreas, centros, redes e formas de relação com a sociedade. Essa talvez seja uma das lições mais importantes da nossa história: a melhor maneira de honrar uma tradição não é, simplesmente, reproduzir o passado, mas sim manter viva a capacidade de construir o futuro”, afirmou Andricopulo em seu discurso de posse.

O novo diretor falou sobre os planos para o próximo quadriênio e a necessidade de um olhar voltado para todas as pessoas que constroem diariamente o IFSC. Entre os desafios, ele mencionou a conclusão de obras importantes, a modernização de laboratórios e as necessidades de manutenção e infraestrutura.

Andricopulo também ressaltou a importância das universidades públicas no enfrentamento dos desafios atuais da sociedade: “O IFSC integra em São Carlos um campus formado por cinco unidades que, juntas, reúnem quase 10 mil estudantes e um amplo conjunto de competências cientificas, tecnológicas e humanas. Esse conjunto de competências é particularmente relevante no momento em que a ciência e a tecnologia avançam em ritmo acelerado, impactando a formação, a pesquisa e a própria relação da Universidade com a sociedade”.

“A melhor maneira de honrar uma tradição não é, simplesmente, reproduzir o passado, mas sim manter viva a capacidade de construir o futuro” – destacou o novo diretor do IFSC/USP – Mesa de autoridades constituída por:  Secretária de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de São Paulo, Drª. Stephanie da Costa; Reitor da USP, Prof. Dr. Aluísio Segurado; Vice-Reitora da USP, Profª Drª Liedi Bernucci; Secretário Gearl da USP, Prof. Dr. Gustavo Ferraz Monaco; Diretor empossado do IFSC/USP, Prof. Dr. Adriano Defini Andricopulo; Vice-Diretor empossado do IFSC/USP, Prof. Dr. Luis Gustavo Marcassa; Vice-Diretora do IFSC/USP no período 2022 a 2026, Profª Drª Ana Paula Ulian de Araújo

Em seu discurso, o reitor Aluisio Segurado destacou a característica inovadora e interdisciplinar do IFSC: “O conhecimento gerado neste Instituto tem sido disruptivo em diversos campos, sendo traduzido em tecnologias amplamente usadas, entre outras áreas, na atenção à saúde, nas telecomunicações, na agricultura e em diversos setores da indústria nacional”.

“Desde a sua fundação, o IFSC tem sido impulsionado pelo espírito investigativo e pela busca incessante pelo avanço do conhecimento em áreas de fronteira. Outra característica distintiva do instituto, presente desde seus primórdios, é a vocação interdisciplinar, buscando aproximar saberes de diferentes áreas do conhecimento, estabelecendo interfaces investigativas de forte impacto científico e tecnológico que conjugam a física, a química, a medicina, a biologia, a engenharia e a ciência dos materiais. Nessa trajetória de sucesso, podemos ressaltar que o IFSC antecipou a maneira inovadora e arrojada de construir a ciência necessária para o enfrentamento dos desafios complexos da sociedade contemporânea”, afirmou o reitor.

O Reitor da USP, Prof. Dr. Aluisio Segurado, reiterou o compromisso em apoiar os novos dirigentes na execução de seu programa de gestão

Para encerrar, o reitor agradeceu aos professores Osvaldo Novais de Oliveira Junior e Ana Paula Ulian de Araújo pela atuação à frente do instituto entre 2022 e 2025, e reiterou o compromisso da Reitoria em apoiar os novos dirigentes na execução de seu programa de gestão.

Prestigiaram a cerimônia a secretária-executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI), Stephanie Yukie Hayakawa da Costa; a vice-reitora Liedi Bernucci; o secretário-geral Gustavo Monaco; ex-diretores do instituto; dirigentes da Universidade e representantes de entidades parceiras.

Quem são

Adriano Defini Andricopulo é professor do Departamento de Física e Ciência Interdisciplinar do IFSC. Graduado em Química pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com mestrado e doutorado em Química Orgânica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Andricopulo realizou estágio de doutorado-sanduíche e pós-doutorado em Química Medicinal na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil em 2002 para atuar como Jovem Pesquisador da Fapesp e, desde então, desenvolve sua carreira acadêmica e científica no IFSC, onde obteve o título de livre-docente. É Professor Titular da USP.

A nova diretoria do IFSC/USP – Prof. Dr. Adriano Defini Andricopulo (Diretor) e Prof. Dr. Luís Gustavo Marcassa (Vice-Diretor)

Foi presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e fellow da Royal Society of Chemistry (RSC) e da lnternational Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC). Atualmente, coordena o Centro de Pesquisa e Inovação Especial em Ciências da Descoberta de Medicamentos (Cepimed/CEPlx-USP).

Aspecto geral da Cerimônia de Posse

Sua atuação se destaca pelas contribuições à química medicinal e à descoberta de fármacos, com ênfase em doenças tropicais negligenciadas e câncer. É coordenador de Transferência de Tecnologia e membro do Comitê Executivo do Centro de Pesquisa e Inovação em Biodiversidade e Fármacos (CIBFar/Cepid/Fapesp-IFSC/USP), membro do Comitê Gestor do Comprehensive Center for Precision Oncology (C2PO-USP), além de coordenador científico e membro do Comitê de Governança do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biodiversidade e Produtos Naturais (INCT-BioNat). Atua de forma integrada em ciência interdisciplinar e inovação tecnológica, contribuindo para o avanço de áreas estratégicas de pesquisa no IFSC.

O vice-diretor Luis Gustavo Marcassa é professor do Departamento de Física e Ciência dos Materiais. É graduado em Física pelo IFSC, com doutorado em Física Atômica e Molecular pela mesma instituição. Realizou estágio de doutorado-sanduíche na Universidade de Maryland e pós-doutorado na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Retornou ao Brasil em 1996, onde foi contratado como professor assistente. Em 2001, obteve o título de livre-docente pelo IFSC e, em 2009, o título de professor titular.

Suas principais áreas de atuação são moléculas frias aprisionadas à laser e átomos de Rydberg. Pertence ao comitê editorial de duas revistas: Journal of Physics B e Scientific Reports. Liderou vários projetos de pesquisa financiados pela Fapesp, CNPq, US Air Force e US Army. Já organizou vários workshops internacionais voltados para átomos de Rydberg.

De 2009 a 2013, foi coordenador do curso de Bacharelado em Física. De 2012 a 2014, foi vice-presidente da Comissão de Graduação do IFSC e, de 2013 a 2022, foi presidente da Comissão de Graduação.

Confira AQUI a cerimônia transmitida no Canal Youtube do IFSC/USP.

(Texto – Erika Yamamoto – Jornal da USP / Fotos – Ricardo Rehder – IFSC/USP)

Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

Crianças com autismo – Estudo preliminar aponta mudanças no sono, atenção e comportamento

Acompanhamento clínico realizado em São Carlos observou avanços no sono, comportamento, atenção, comunicação e interação social de crianças com Transtorno do Espectro Autista após protocolo que associa fotobiomodulação e ultrassom terapêutico

Uma tecnologia já utilizada em diferentes áreas da saúde pode abrir novas perspectivas para o cuidado complementar de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Um estudo desenvolvido em São Carlos acompanhou três crianças submetidas a um protocolo que associa fotobiomodulação (conhecida também como laserterapia de baixa intensidade) e ultrassom terapêutico. Ao final do acompanhamento, familiares relataram mudanças positivas em aspectos como sono, irritabilidade, atenção, comunicação, aprendizagem e interação social.

A pesquisa foi desenvolvida pela aluna Luciana Cristina Stenquerviche Calça, do curso de Pós-Graduação em Laser em Saúde do Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) da Santa Casa de São Carlos (SCMSC), sob orientação do Dr. Antonio Eduardo de Aquino Junior.

O trabalho teve caráter preliminar e envolveu apenas três participantes, e por isso seus resultados não permitem afirmar que a técnica seja eficaz para todas as pessoas com autismo. Ainda assim, a convergência de alguns relatos chamou a atenção dos pesquisadores, especialmente porque as mudanças descritas ocorreram em áreas que exercem grande influência sobre a rotina das crianças e de suas famílias.

Mais do que buscar uma nova forma isolada de tratamento, a proposta é investigar se tecnologias não invasivas podem futuramente ser incorporadas como ferramentas complementares ao acompanhamento multidisciplinar já realizado por crianças com TEA.

Autismo é um espectro de manifestações

O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada principalmente por alterações persistentes na comunicação e na interação social, acompanhadas, em diferentes graus, por padrões restritos ou repetitivos de comportamento, interesses e atividades.

A palavra “espectro” é fundamental para compreender a condição. Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem apresentar necessidades bastante diferentes. Enquanto algumas desenvolvem linguagem funcional e conseguem realizar grande parte das atividades cotidianas com menor necessidade de suporte, outras podem apresentar comprometimentos importantes de comunicação, autonomia e adaptação social.

Essa diversidade também significa que não existe uma única manifestação clínica do autismo. Sono, ansiedade, irritabilidade, atenção, aprendizagem, processamento sensorial e regulação emocional podem estar comprometidos de maneiras e intensidades diferentes.

A ciência também tem demonstrado que o TEA não pode ser explicado por um único mecanismo biológico. O conhecimento atual aponta para uma condição multifatorial, na qual interagem fatores genéticos, epigenéticos, ambientais, metabólicos e imunológicos.

A aluna da Especialização em Laser e Saúde (IEP-SCMSC)– Luciana Cristina Stenquerviche Calça

Pesquisas vêm investigando, por exemplo, alterações na organização e funcionamento das conexões neuronais, no equilíbrio entre mecanismos excitatórios e inibitórios do sistema nervoso, na função mitocondrial, no estresse oxidativo e em processos relacionados à neuroinflamação. É justamente essa complexidade que torna necessária uma abordagem terapêutica igualmente ampla.

Quando dormir melhor pode transformar o dia

Entre os problemas associados ao TEA, os distúrbios do sono merecem atenção especial. Para muitas famílias, fazer uma criança dormir e manter um sono adequado durante a noite representa um desafio diário. O impacto vai muito além do cansaço.

Uma criança que dorme mal pode acordar menos disposta, apresentar maior irritabilidade e ter mais dificuldade para manter atenção durante as atividades escolares e terapêuticas. O comprometimento do sono também pode interferir na memória, no aprendizado e na capacidade de regulação emocional. A consequência frequentemente alcança toda a família. Quando uma criança não dorme adequadamente, pais e cuidadores também podem ter o sono interrompido, aumentando o desgaste físico e emocional da rotina doméstica.

Por esse motivo, a melhora do sono foi um dos achados que mais despertaram interesse no acompanhamento realizado em São Carlos. Nos três casos descritos no trabalho, os familiares perceberam mudanças relacionadas ao padrão de sono após o protocolo.

Embora uma série de três casos não permita estabelecer uma relação definitiva de causa e efeito, a repetição dessa percepção nos participantes aponta uma questão relevante para futuras pesquisas.

A proposta: combinar luz e ultrassom

O protocolo estudado utiliza um equipamento, desenvolvido pelo IFSC/USP sob supervisão do docente e pesquisador, Prof. Vanderlei Bagnato, que permite a aplicação simultânea de laser de baixa intensidade e ultrassom terapêutico.

Diferentemente dos lasers empregados em procedimentos cirúrgicos, que podem produzir corte ou destruição de tecidos, a fotobiomodulação utiliza luz em parâmetros destinados a provocar respostas biológicas sem produzir esse tipo de dano.

As três crianças participaram de dez sessões, realizadas duas vezes por semana. Cada sessão teve duração total de aproximadamente 32 minutos, aplicados em modo sistêmico.

A proposta de utilização periférica é um dos aspectos particulares da abordagem investigada. Em vez de direcionar a aplicação diretamente para a cabeça, o protocolo busca explorar possíveis respostas sistêmicas associadas à estimulação por luz e ultrassom.

As avaliações foram realizadas a partir dos registros clínicos e de entrevistas com os familiares antes e após o tratamento. Os participantes permaneceram utilizando as terapias e medicamentos previamente indicados por seus profissionais de saúde.

Por que utilizar fotobiomodulação e ultrassom?

Um dos principais campos de investigação da fotobiomodulação está relacionado à mitocôndria, estrutura celular diretamente envolvida na produção de energia.

Um dos alvos estudados da luz vermelha e infravermelha é a citocromo c oxidase, enzima localizada na cadeia respiratória mitocondrial. A interação da luz com componentes celulares pode desencadear respostas associadas ao metabolismo energético, à sinalização celular e à modulação de processos oxidativos e inflamatórios.

No sistema nervoso, essas respostas despertam interesse porque neurônios são células com elevada demanda energética. Alterações no metabolismo mitocondrial e no equilíbrio oxidativo vêm sendo investigadas em diferentes condições neurológicas e neuropsiquiátricas.

Esses possíveis efeitos fornecem a base científica para estudar a tecnologia no contexto do TEA. No entanto, é importante distinguir mecanismo biologicamente plausível de eficácia clínica comprovada. Demonstrar alterações celulares em estudos experimentais não significa automaticamente que determinado protocolo produzirá benefício clínico em todas as crianças com autismo

A outra parte do protocolo é o ultrassom terapêutico, tecnologia já conhecida em diferentes áreas da fisioterapia e da reabilitação. O equipamento utilizado permite que a emissão luminosa e a ultrassônica ocorram simultaneamente, promovendo a sobreposição dos campos durante a aplicação. A hipótese discutida pelos pesquisadores é de que a combinação possa produzir respostas complementares. O ultrassom gera estímulos mecânicos nos tecidos, enquanto a fotobiomodulação está associada principalmente a interações fotoquímicas e fotobiológicas.

Três crianças, três histórias

Apesar de terem a mesma idade (os três participantes eram meninos de 10 anos), cada criança iniciou o acompanhamento apresentando dificuldades diferentes.

No primeiro caso, a família relatava problemas de interação social e comunicação, dificuldade para lidar com sentimentos e frustrações e sono agitado. A criança costumava dormir tarde e precisava acordar cedo para ir à escola, permanecendo sonolenta durante o dia. Depois das dez sessões, a mãe relatou que o filho passou a dormir mais cedo e melhor. Também percebeu a criança mais calma e brincalhona, com maior capacidade de se relacionar com colegas da escola. Segundo o relato familiar, houve ainda melhora na forma de lidar com emoções e frustrações, embora algumas dificuldades permanecessem.

O segundo caso apresentava um quadro diferente. Falta de atenção, irritabilidade e dentre outros pontos observados. No segundo participante, os avós eram responsáveis pela criança e relataram inicialmente irritabilidade intensa, sono agitado, dificuldade de atenção e concentração e problemas relacionados ao desempenho escolar. Segundo o relato da avó registrado no estudo, a criança apresentava dificuldade para manter o foco e realizava trocas de palavras no ambiente escolar. Também utilizava medicamentos para auxiliar no controle de sintomas e no sono.

Após o protocolo, a família descreveu melhora importante da atenção e da capacidade de estudar sem perder o foco, além de mudanças no sono e na irritabilidade. Um dado especialmente relevante foi a alteração da medicação durante o período de acompanhamento. De acordo com os registros do estudo, o médico responsável pela criança suspendeu o uso de metilfenidato e reduziu a dose de risperidona.

Esse ponto precisa ser interpretado com cuidado. A modificação da medicação foi uma decisão médica, e não uma conduta estabelecida pelo protocolo experimental. O estudo também não permite concluir que a fotobiomodulação ou o ultrassom possam substituir medicamentos ou que crianças submetidas ao procedimento devam reduzir tratamentos farmacológicos. A observação, porém, constitui um dado clínico que merece ser investigado em estudos futuros, especialmente por meio de protocolos que registrem de forma sistemática o uso de medicamentos antes, durante e depois da intervenção.

O terceiro caso também apresentou um conjunto de observações interessantes. Antes do tratamento, a mãe relatava dificuldades importantes de aprendizagem, atenção e concentração. A criança apresentava pouca tolerância para permanecer sentada estudando e dificuldades na fala, apesar de já realizar acompanhamento fonoaudiológico. Durante o período do protocolo, a criança estava em época de avaliações escolares. Após as sessões, a mãe percebeu maior disposição para estudar e revisar os conteúdos antes das provas. Também relatou melhora de atenção e interesse por atividades que anteriormente despertavam pouca participação. Segundo o registro apresentado no trabalho, a evolução percebida não ficou restrita ao ambiente familiar. A professora também identificou mudanças no desempenho e passou a avaliar a possibilidade de adaptar o conteúdo pedagógico ao novo momento de aprendizagem da criança.

A família relatou ainda evolução na comunicação, no sono e no aproveitamento de outras terapias já realizadas, incluindo fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia. Novamente, esses relatos não demonstram isoladamente que as mudanças foram provocadas pelo protocolo. Crianças com TEA continuam se desenvolvendo e, neste estudo, permaneceram recebendo outras intervenções simultaneamente. Ainda assim, o conjunto de observações fornece elementos para a formulação de hipóteses que podem agora ser testadas de maneira mais rigorosa.

Um padrão chamou a atenção dos pesquisadores

Quando os três casos são observados em conjunto, alguns aspectos aparecem repetidamente. A melhora do sono foi relatada nos participantes. Também foram observadas mudanças relacionadas à irritabilidade e à regulação emocional, além de sinais de evolução na atenção, interação social, comunicação e desempenho em atividades cotidianas ou escolares.

A presença de tendências semelhantes em crianças que apresentavam perfis clínicos distintos foi considerada relevante pelos pesquisadores. Mas o tamanho da amostra exige cautela.

Com apenas três participantes, qualquer conclusão deve permanecer no campo exploratório. O valor principal desse tipo de estudo está em identificar sinais clínicos que justifiquem uma investigação posterior mais estruturada.

Terapia complementar, e não substituição do tratamento convencional

Um dos pontos mais importantes destacados pelos pesquisadores é que a proposta não pretende substituir os tratamentos já utilizados no acompanhamento do autismo.

Crianças com TEA podem necessitar de diferentes combinações de acompanhamento médico, psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, intervenções educacionais e comportamentais, fisioterapia e, em determinadas situações, medicamentos.

A fotobiomodulação associada ao ultrassom está sendo investigada como uma possível ferramenta complementar. Essa distinção é essencial porque o TEA é uma condição complexa e heterogênea. Não existe um tratamento único capaz de responder a todas as necessidades de todos os indivíduos. Uma tecnologia complementar será realmente relevante se conseguir melhorar aspectos específicos da vida da criança sem interromper estratégias que já apresentam benefícios.

Nesse sentido, mudanças no sono, atenção ou regulação emocional poderiam ter repercussões indiretas importantes. Uma criança que dorme melhor, por exemplo, pode chegar mais descansada à escola ou à sessão de fonoaudiologia. Se consegue permanecer mais atenta, pode aproveitar melhor uma intervenção educacional. Se apresenta menor irritabilidade, pode encontrar mais oportunidades de interação com familiares e colegas.

Resultados promissores, mas ainda preliminares

Os próprios pesquisadores ressaltam as limitações do trabalho. A primeira é o número de participantes: apenas três crianças.

A segunda é a ausência de um grupo controle. Sem comparar os participantes tratados com crianças que não receberam o protocolo (ou que receberam uma intervenção placebo) não é possível determinar com segurança quanto das mudanças ocorreu em função do tratamento.

Dr. Antonio Eduardo de Aquino Junior – Coordenador da Pós-Graduação em Laser e Saúde (IEP-SCMSC) e pesquisador IFSC/USP

Outro aspecto importante é a forma de avaliação. Grande parte dos resultados foi obtida por entrevistas com familiares e observações registradas em prontuários, sem aplicação sistemática, neste estudo, de instrumentos quantitativos padronizados para medir comportamento, cognição, sono e qualidade de vida.

Também existiam tratamentos concomitantes. As crianças continuaram recebendo cuidados convencionais, e isso significa que os efeitos de diferentes intervenções podem ter ocorrido simultaneamente. Essas limitações não anulam as observações realizadas. Elas definem, porém, até onde é possível interpretar os resultados.

O estudo não demonstra que laser e ultrassom tratam o autismo. O que ele mostra é que, nesses três casos acompanhados, houve mudanças clínicas percebidas durante o período em que as crianças foram submetidas ao protocolo, justificando a realização de investigações mais amplas e controladas.

O próximo passo é transformar observações em evidências

Para avançar, os pesquisadores apontam a necessidade de ensaios clínicos com maior número de participantes, grupos de comparação e distribuição randomizada dos voluntários.

Outra etapa será incorporar instrumentos padronizados capazes de transformar percepções clínicas em dados quantitativos. Questionários específicos para qualidade do sono, escalas de comportamento adaptativo, avaliações de ansiedade, testes cognitivos e instrumentos relacionados às características do TEA podem permitir uma comparação mais objetiva entre o período anterior e posterior à intervenção.

Há também interesse em integrar avaliações biológicas. Marcadores relacionados à inflamação, estresse oxidativo e metabolismo energético poderiam ajudar a responder não apenas se determinada mudança clínica acontece, mas também como ela acontece.

Esse ponto é especialmente importante para uma área como a fotobiomodulação. Ao aproximar resultados clínicos de biomarcadores, os pesquisadores podem investigar se mudanças comportamentais e funcionais são acompanhadas por alterações fisiológicas mensuráveis.

Pesquisa continua em São Carlos

Os resultados obtidos abriram caminho para a continuidade da linha de investigação. O Dr. Antonio Eduardo de Aquino Junior, coordenador da Pós-Graduação em Laser em Saúde e pesquisador do IFSC/USP, segue orientando novas pesquisas relacionadas ao contexto do estudo original, sob supervisão do Prof. Vanderlei Salvador Bagnato.

A proposta é avançar progressivamente de observações clínicas iniciais para desenhos experimentais capazes de produzir evidências mais robustas. O interesse não está apenas em verificar se os resultados se repetem em um número maior de participantes, mas em compreender quais crianças eventualmente respondem melhor, quais funções apresentam maior possibilidade de mudança e quais mecanismos biológicos podem estar envolvidos.

Para as famílias, pesquisas dessa natureza representam a possibilidade de ampliar o conjunto de ferramentas disponíveis para melhorar a qualidade de vida. Para a ciência, representam um desafio ainda maior: transformar resultados clínicos promissores em evidências reproduzíveis, mensuráveis e capazes de resistir ao rigor dos estudos controlados.

Por enquanto, os três casos acompanhados em São Carlos não oferecem uma resposta definitiva. Eles oferecem algo que costuma anteceder grandes investigações científicas: uma observação clínica que gera novas perguntas. Esperamos agora que o trabalho de doutorado da aluna Vanessa Garcia possa obter as respostas necessárias e avaliar os possíveis benefícios desse modelo de intervenção associativo.

Informações sobre a linha de pesquisa: antonioaquino@ifsc.usp.br

Link do estudo publicado em livro: https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/download-de-livros-ifsc/

Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

A ciência como missão e o sonho de colocar o Brasil na vanguarda dos novos medicamentos – A nova geração de docentes do IFSC/USP

“Durante o meu mestrado percebi que a carreira acadêmica poderia deixar de ser apenas uma possibilidade para se transformar em um verdadeiro projeto de vida

Professor do IFSC/USP construiu uma trajetória marcada pela decisão tardia em ingressar na universidade, pela pesquisa em doenças tropicais negligenciadas e por uma convicção: “Sem formação de pessoas, disposição para assumir riscos e investimentos de longo prazo, o Brasil continuará distante do protagonismo mundial no desenvolvimento de novos medicamentos”.

A trajetória acadêmica do docente Prof. Leonardo Luíz Gomes Ferreira não começou de maneira linear nem foi resultado de uma decisão tomada ainda nos bancos escolares. Nascido em São Carlos, ele concluiu o ensino médio na tradicional escola pública Doutor Álvaro Guião e, antes de chegar à universidade, passou alguns anos trabalhando na iniciativa privada. “De fato, eu pretendia cursar o ensino superior, mas precisava descobrir qual caminho seguir, precisava ter a certeza”, comenta o docente.

A escolha acabou recaindo sobre as ciências biomédicas. Como o curso não existia em São Carlos, Leonardo ingressou na Universidade de Araraquara (Uniara), onde encontrou uma formação que transitava entre a biologia, química e física. Foi nesse ambiente que começou a se interessar particularmente por uma questão que acabaria definindo sua vida profissional: como as moléculas interagem com um sistema tão complexo quanto o corpo humano.

Essa curiosidade científica o conduziu ao Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP). Ao conhecer o programa de Pós-Graduação em Física Biomolecular e, especialmente, a linha de pesquisa em Química Medicinal, Leonardo Ferreira encontrou o campo no qual viria a construir sua carreira. Ingressou no mestrado, sob orientação do Prof. Dr. Adriano Andricopulo, defendeu a dissertação em 2007 e, no ano seguinte, também sob orientação do Prof. Adriano, iniciou o doutorado, concluído em 2013. Foi ainda durante o mestrado que percebeu que a carreira acadêmica poderia deixar de ser apenas uma possibilidade para se transformar em projeto de vida.

Ciência voltada para doenças negligenciadas

A consolidação de sua atuação científica ocorreu em uma área que expõe não apenas os desafios da medicina, mas também profundas desigualdades econômicas e sociais: o desenvolvimento de medicamentos para doenças tropicais negligenciadas.

Em 2013, o Laboratório de Química Medicinal e Computacional do IFSC já mantinha parcerias com organizações não governamentais envolvidas no desenvolvimento de fármacos. Surgiu então a oportunidade para Leonardo Ferreira realizar um pós-doutorado direcionado a doenças como Chagas e Leishmanioses, sob supervisão do Prof. Dr. Glaucius Oliva (IFSC/USP).

“Essa experiência ampliou minha aproximação com organizações internacionais e com a indústria farmacêutica. Em 2017 realizei um estágio na Universidade da Antuérpia (no Laboratório de Microbiologia, Parasitologia e Higiene), na Bélgica, sob a supervisão do Prof. Dr. Louis Maes, onde tive contato com novas tecnologias aplicadas ao desenvolvimento de medicamentos para Leishmanioses, sendo que trouxe esse conhecimento para o IFSC/USP”, recorda Leonardo. O período de seu pós-doutorado se estendeu até o concurso para professor, realizado em 2022. Em fevereiro de 2023, iniciou formalmente suas atividades docentes no IFSC/USP.

Mais do que uma especialidade científica, o trabalho com doenças negligenciadas coloca diante do pesquisador uma questão incômoda: por que enfermidades que atingem milhões de pessoas não recebem a atenção esperada por parte das grandes indústrias e dos laboratórios de ponta?

“Essas doenças tropicais negligenciadas atingem principalmente populações do chamado Sul Global, sobretudo em regiões da Ásia, África e América Latina, embora algumas delas já avancem também para países europeus e para os Estados Unidos. São enfermidades que afetam, em grande medida, pessoas social e economicamente vulneráveis e é justamente aí que surge um dos problemas estruturais. O desenvolvimento de um medicamento pode exigir investimentos extremamente elevados. Para empresas que precisam recuperar os recursos empregados na pesquisa, mercados formados majoritariamente por populações de baixo poder aquisitivo tendem a ser menos atraentes. Nesse cenário, é fundamental as parcerias existentes entre universidades, organizações não governamentais e empresas farmacêuticas para tornar possíveis pesquisas que dificilmente avançariam apenas pela lógica convencional do mercado”, sublinha o docente.

Segundo o pesquisador, a participação da indústria nessas iniciativas pode representar também uma forma de contribuição social que ultrapassa a busca imediata pelo lucro. Algumas empresas, afirma, encaram esse envolvimento como uma espécie de obrigação moral e de retorno à sociedade.

A responsabilidade de formar pessoas

“Meu sonho como pesquisador é fazer com que o Brasil seja um player internacional importante no desenvolvimento radical de fármacos”

A chegada à docência acrescentou outra dimensão à carreira de Leonardo Ferreira. Se no laboratório o desafio é compreender fenômenos complexos e procurar moléculas capazes de se transformarem, algum dia, em medicamentos, já na sala de aula a responsabilidade é outra: formar quem fará a ciência das próximas décadas, e Leonardo Ferreira trata essa tarefa com muita seriedade. “Ter me tornado professor significou perceber a dimensão da influência que um docente exerce sobre a formação e sobre as escolhas profissionais dos estudantes. Considero cada aula uma grande responsabilidade, justamente porque sei que participo diretamente da formação de jovens que ainda estão construindo seus caminhos”, destaca o professor.

Na graduação, identifica um desafio particular: muitos estudantes ainda não sabem exatamente o que querem profissionalmente. Isso, entretanto, não o desanima. Ao contrário. Leonardo Ferreira afirma sentir-se estimulado pela possibilidade de despertar o interesse dos alunos e procura dar o máximo em suas aulas para tornar o conhecimento atraente e significativo.

Na pós-graduação, a questão assume outra dimensão. Para ele, é necessário ensinar aos novos pesquisadores que a ciência contemporânea não cabe dentro de fronteiras rígidas.

Química, física, biologia, bioquímica e biofísica precisam dialogar porque os grandes problemas científicos não respeitam divisões administrativas ou acadêmicas. “A natureza, simplesmente apresenta os desafios. Cabe aos pesquisadores reunir diferentes conhecimentos para enfrentá-los. Por isso, considero fundamental que os pós-graduandos desenvolvam uma visão multidisciplinar e transdisciplinar, independentemente de seguirem posteriormente para empresas ou instituições públicas de pesquisa”, observa Leonardo.

O Brasil e o risco de inovar

É quando olha para o futuro, porém, que o discurso de Leonardo Ferreira ganha contornos particularmente firmes.

Seu objetivo é contribuir para que o Brasil deixe de ocupar uma posição secundária no desenvolvimento de medicamentos verdadeiramente inovadores.

O pesquisador reconhece a competência brasileira no desenvolvimento de novas formulações e medicamentos genéricos. O problema, segundo ele, está na chamada inovação radical: a capacidade de desenvolver novos fármacos desde as etapas iniciais de pesquisa, assumindo os elevados custos, o longo tempo necessário e, sobretudo, o risco de fracasso.

“Meu sonho como pesquisador é fazer com que o Brasil seja um player internacional importante no desenvolvimento radical de fármacos. Não se trata de uma meta simples. Desenvolver um medicamento é um processo longo e complexo, justamente porque a ciência ainda está distante de compreender integralmente o funcionamento do corpo humano. Diferentemente de outros produtos tecnológicos, um novo fármaco enfrenta variáveis biológicas que nem sempre podem ser previstas ou controladas. Por isso, o primeiro investimento necessário é humano: formar pessoas altamente qualificadas, capazes de compreender a complexidade desse processo e, principalmente, preparadas para não desistir diante dos fracassos, destaca o professor.

Para Leonardo Ferreira, a pesquisa farmacêutica pode consumir anos sem produzir o resultado esperado. Grandes companhias multinacionais estão mais preparadas para absorver essas perdas. Na sua avaliação, a indústria brasileira ainda demonstra maior aversão ao risco associado à inovação radical. E esse é um obstáculo importante: inovar custa caro e não existe garantia de retorno. A questão central, portanto, está também na maneira como a sociedade, as empresas e as instituições encaram a ciência

Pesquisa é gasto ou investimento?

Para o docente a resposta não admite hesitação: é investimento. O problema é que, diante da possibilidade concreta de insucesso, muitas vezes os recursos destinados à pesquisa são interpretados como despesas desnecessárias. Na ciência de fronteira, entretanto, o fracasso faz parte do próprio processo de construção do conhecimento. O sucesso não é imediato — e muitas vezes sequer chega.

“A ciência vale a pena”

Depois de uma trajetória que passou pela escola pública, pela iniciativa privada, pela graduação em outra cidade, pelo mestrado, doutorado, pós-doutorado, experiência internacional, pesquisa de medicamentos e, finalmente, pela docência na USP, o Prof. Leonardo Ferreira resume sua visão sobre a carreira científica em uma frase curta: “A ciência vale a pena.”

“Que lugar o nosso País pretende ocupar na ciência das próximas décadas?”

Não se trata, em seu discurso, de uma visão idealizada. Ferreira reconhece explicitamente o preço dessa escolha. São anos de estudo e dedicação, eventualmente décadas. O retorno dificilmente é imediato. A recompensa financeira pode não ser comparável à de outras carreiras. O pesquisador precisa conviver com incertezas e com a possibilidade de dedicar anos a uma hipótese que, ao final, não produzirá o resultado esperado. Ainda assim, sua mensagem aos estudantes é de persistência.

Para o professor, quem consegue descobrir aquilo que verdadeiramente gosta de fazer dentro da ciência pode construir uma vida profissional marcada não apenas pelo trabalho, mas pelo sentido de realização. Ciência, em sua concepção, exige conhecimento e rigor, mas exige também dedicação e paixão. É uma mensagem coerente com sua própria trajetória.

Leonardo Ferreira não saiu do ensino médio diretamente para uma carreira acadêmica previamente desenhada. Trabalhou, escolheu, mudou de ambiente, aprofundou sua formação, aproximou-se de problemas científicos cada vez mais complexos e chegou à docência depois de anos dedicados à pesquisa. Agora, seu desafio ultrapassa a própria carreira.

Ao defender a formação de novos pesquisadores, o investimento em inovação radical e uma participação mais ambiciosa do Brasil no desenvolvimento mundial de medicamentos, Leonardo Ferreira coloca no centro do debate uma questão que transcende os laboratórios: “Que lugar o nosso País pretende ocupar na ciência das próximas décadas? A resposta dependerá de financiamento, universidades, empresas, políticas de inovação e infraestrutura. Mas, dependerá, sobretudo, de pessoas dispostas a aceitar algo que eu aprendi ao longo de minha própria trajetória: na ciência, resultados importantes raramente surgem de imediato. É preciso conhecimento. É preciso investimento. É preciso aceitar riscos. E, acima de tudo, é preciso persistir”, conclui o docente.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

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