Produção científica do IFSC/USP no mês de fevereiro de 2026

Para ter acesso às atualizações da Produção Científica cadastradas no mês de  fevereiro de 2026, clique AQUI, ou acesse o Repositório da Produção USP (AQUI). As atualizações também podem ser conferidas no Totem “Conecta Biblio”, em frente à Biblioteca. A figura ilustrativa foi extraída do artigo publicado recentemente, por pesquisador do IFSC/USP, no periódico “ACS […]

Bolsas de Doutorado e Pós-Doutorado – Inscrições até o próximo dia 30 de abril

O Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), por meio do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), está disponibilizando uma bolsa de Doutorado e uma bolsa de Pós-Doutorado no âmbito da parceria CNPEM-USP para atuação em projeto de pesquisa na área de bioquímica […]

Produção científica do IFSC/USP no mês de fevereiro de 2026

Para ter acesso às atualizações da Produção Científica cadastradas no mês de  fevereiro de 2026, clique AQUI, ou acesse o Repositório da Produção USP (AQUI). As atualizações também podem ser conferidas no Totem “Conecta Biblio”, em frente à Biblioteca. A figura ilustrativa foi extraída do artigo publicado recentemente, por pesquisador do IFSC/USP, no periódico “ACS […]

Bolsas de Doutorado e Pós-Doutorado – Inscrições até o próximo dia 30 de abril

O Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), por meio do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), está disponibilizando uma bolsa de Doutorado e uma bolsa de Pós-Doutorado no âmbito da parceria CNPEM-USP para atuação em projeto de pesquisa na área de bioquímica […]

EVENTOS

NOTÍCIAS

Alerta em fazendas leiteiras no Nordeste do Brasil com bactéria Streptococcus agalactiae provovando altos índices de mastite bovina

Mastite bovina (Créditos – “Iomlan Animal Science”)

Um amplo mapeamento genético de Streptococcus agalactiae — bactéria associada à mastite bovina — revelou alta diversidade de linhagens circulando em rebanhos leiteiros do Nordeste brasileiro, além da presença de genes ligados à resistência a antibióticos importantes na prática veterinária. Os dados reforçam o alerta para vigilância sanitária e uso mais criterioso de antimicrobianos na pecuária leiteira.

O estudo, liderado pela pesquisadora do IFSC/USP, Profª Ilana Lopes Baratella da Cunha Camargo, juntamente com sua equipe e outros colegas brasileiros e publicado na revista científica internacional “Pathogens”, analisou amostras de leite de vacas com mastite clínica e subclínica no estado da Paraíba.

A partir do sequenciamento genômico completo das bactérias isoladas, os pesquisadores identificaram diferentes tipos de sequência (STs), com destaque para linhagens já associadas a infecções em bovinos em outras partes do mundo. Essa variedade genética indica que a população bacteriana é mais complexa do que se imaginava e pode dificultar estratégias padronizadas de controle da doença.

Entre os achados que mais preocupam está a detecção de genes de resistência a antibióticos, incluindo aqueles relacionados à tetraciclina e aos macrolídeos. Essas classes de medicamentos são frequentemente utilizadas no tratamento de infecções em animais de produção. A presença desses genes sugere que parte das bactérias já possui mecanismos para sobreviver a terapias convencionais, o que pode levar a falhas de tratamento e à persistência da infecção nos rebanhos.

Streptococcus_agalactiae (Créditos – “Wikipedia”)

Os cientistas também investigaram fatores de virulência — características genéticas que aumentam a capacidade da bactéria de causar doença. Foram encontrados genes associados à adesão às células do hospedeiro e à evasão do sistema imune, elementos que ajudam a explicar por que Streptococcus agalactiae consegue estabelecer infecções crônicas na glândula mamária das vacas, impactando diretamente a produção e a qualidade do leite.

A mastite está entre as enfermidades mais onerosas da cadeia leiteira, causando redução da produção, descarte de leite e custos com medicamentos e manejo. Para os autores da pesquisa, o detalhamento genômico das cepas circulantes abre caminho para programas de controle mais direcionados, que considerem o perfil genético local das bactérias, em vez de depender apenas de protocolos generalizados.

Os resultados também dialogam com uma preocupação global: a resistência antimicrobiana. Embora o estudo tenha foco veterinário, microrganismos resistentes em animais podem representar risco indireto à saúde pública, seja por contato direto, seja pela cadeia alimentar. Por isso, os pesquisadores defendem integração entre vigilância animal e humana dentro do conceito de Saúde Única (One Health).

Na prática, o trabalho reforça a importância de medidas como diagnóstico laboratorial antes do tratamento, melhoria das condições de higiene na ordenha e monitoramento constante dos rebanhos.

Mais do que tratar, o desafio agora é prevenir a disseminação de linhagens resistentes que já estão presentes nas fazendas leiteiras da região.

Confira AQUI o estudo publicado na revista internacional “Pathogens”.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

No Dia Internacional da Mulher – Bióloga premiada destaca desafios enfrentados por mulheres na ciência

A bióloga brasileira Gabriela Dias Noske, de 28 anos, afirmou que mulheres que atuam na área científica muitas vezes precisam se esforçar mais para conquistar reconhecimento profissional.

A pesquisadora, que recebeu o “Grande Prêmio de Tese da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)”, destacou em reportagem publicada no “Jornal de Brasília” – Ana Bottallo / “FolhaPress” (08/03/2026) – que a desigualdade de gênero ainda está presente no ambiente acadêmico e na carreira científica.

Pesquisadora do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), ligado ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), Gabriela atua na área de biologia estrutural. Segundo ela, o desafio começou ainda durante a graduação no Curso de Ciências Físicas e Biomoleculares no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP). Em turmas com cerca de 20 estudantes, havia apenas uma ou duas mulheres, o que refletia um ambiente predominantemente masculino.

A cientista relata que, durante o doutorado, chegou a ouvir críticas de colegas homens sobre a forma como conduzia seus estudos, sendo desencorajada a seguir suas próprias ideias. Mesmo assim, persistiu na carreira acadêmica e concluiu o doutorado direto em 2023. O trabalho rendeu a ela o Grande Prêmio Capes de Tese na área de Exatas em 2024, concedido anualmente a apenas três pesquisadores no país.

Durante a pandemia de Covid-19, sua tese integrou um projeto voltado à identificação de enzimas capazes de inibir a ação do vírus SARS-CoV-2, com potencial para a produção de novos medicamentos. A pesquisadora afirmou que foi gratificante aplicar seu conhecimento científico em benefício da sociedade em um momento de crise global.

Atualmente, Gabriela dedica-se ao estudo do fungo Trichoderma reesei, utilizado na indústria para a degradação da celulose e produção de bioetanol. Para analisar a estrutura molecular das enzimas produzidas pelo microrganismo, a cientista utiliza técnicas como cristalografia de raios X e criomicroscopia eletrônica, além de experimentos realizados no acelerador de partículas Sirius (acelerador de partículas brasileiro), considerado o maior do país.

Apesar das conquistas, a pesquisadora observa que muitos cargos de liderança na ciência ainda são ocupados majoritariamente por homens. Para ela, essa realidade reforça a sensação de que mulheres precisam demonstrar constantemente sua capacidade para alcançar as mesmas posições.

Gabriela afirma que se inspira em cientistas históricas como Marie Curie e Rosalind Franklin. No futuro, quando estiver à frente de seu próprio laboratório, pretende incentivar a presença feminina na pesquisa científica, contribuindo para reduzir as desigualdades e fortalecer a participação das mulheres na ciência.

(Foto – “Folha/Ciência”)

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

Curso de Férias em Espectroscopia Óptica Avançada: Teoria e Prática – Uma iniciativa muito positiva no IFSC/USP

O Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), através do Centro de Pesquisas em Óptica e Fotônica (CePOF – CEPIx USP e INCT CNPq), realizou, entre os dias 2 e 13 deste mês de fevereiro, o “Curso de Férias em Espectroscopia Óptica Avançada – Teoria e Prática”, iniciativa que reuniu, principalmente, alunos de graduação interessados em aprofundar os seus conhecimentos em uma das áreas centrais da pesquisa científica moderna.

Com mais de oitenta alunos inscritos, foram selecionados vinte jovens que participaram de atividades que ocorreram diariamente em dois períodos, pela manhã e à tarde, totalizando quatro horas de aulas e práticas laboratoriais por dia.

Durante o curso, os participantes revisaram conceitos fundamentais sobre a interação entre luz e matéria, abordando, entre outros temas, dos fundamentos clássicos aos aspectos quânticos, incluindo atividades práticas com técnicas consideradas essenciais na área, como absorção UV-Vis, emissão óptica e fluorescência molecular, além do uso de instrumentação avançada, como, por exemplo, monocromadores, espectrômetros e sistemas de aquisição em diferentes configurações experimentais.

Os participantes ainda tiveram contato com métodos modernos de análise, como medidas de tempo de vida, TCSPC, espectroscopia Raman e FTIR, espalhamento elástico e inelástico, técnicas de polarização e processos multifóton.

Preparando os estudantes para os desafios da ciência

Com o objetivo de proporcionar uma experiência próxima da realidade científica, preparando estudantes para aplicar as ferramentas aprendidas em projetos de iniciação científica e pesquisas em laboratórios especializados, a iniciativa reuniu não só alunos de graduação do próprio IFSC/USP, como também outros oriundos de outras unidades da USP São Carlos, da UNESP e UFSCar.

Aula com o Prof. Dr. Francisco Eduardo Gontijo Guimarães (IFSC/USP)

Pedro Krauss

Pedro Kraus, oriundo de Campo Grande (MS) e aluno do último ano do Bacharelado em Física (IFSC/USP), não hesitou em se inscrever no curso. “Estou investindo muito em óptica e fotônica, inclusive estou a fazer iniciação científica nessa área, e estou trabalhando principalmente em espectroscopia. Dessa forma, entendi que participar deste curso seria muito útil, atendendo a que estou trabalhando a fundo na espectroscopia óptica durante este semestre. Em relação ao conteúdo do curso, está sendo diferente do que eu esperava, no sentido positivo, já que participei de inúmeros experimentos que para mim foram novidade, além de várias informações muito valiosas”, destaca o aluno.

Júlia Bernardes Coelho, oriunda de Araguari (MG) está cursando o 3º ano do Bacharelado em Física Biomolecular também no IFSC/USP. “Eu sempre vejo na minha iniciação científica os meus colegas trabalhando com espectroscopia e eu não entendia direito todo esse processo, nem entendia a importância que ela tinha como um método analítico para estudar as interações entre a matéria e a radiação. Quando eu soube que ia ter este curso e que a programação seria teórica e prática, achei que seria uma ótima oportunidade para ficar por dentro dessa área e tirar todas as dúvidas”, pontua a aluna.

Segundo o Prof. Sebastião Pratavieira, “Este foi o primeiro curso desse tipo que oferecemos, que acabou sendo um aprendizado também para nós, docentes — tanto na organização quanto em entender melhor o que funciona para os alunos quando juntamos teoria com prática de laboratório”, relata o docente, acrescentando que a espectroscopia óptica é uma área muito ampla, com muitas técnicas e aplicações diferentes.

Júlia Bernardes Coelho

“No IFSC/USP temos várias linhas de pesquisa, básicas e aplicadas, que dependem diretamente dessas ferramentas. Então faz bastante sentido criar um curso de férias que apresente esse “panorama” e, ao mesmo tempo, coloque os estudantes para medir, analisar e interpretar dados de verdade. Além disso, nossos laboratórios de ensino já contam com diversos experimentos e instrumentação que permitem esse tipo de atividade prática, e foi muito bom poder usar essa estrutura para aproximar os participantes do cotidiano de um laboratório de pesquisa”, conclui o professor.

A expectativa é que cada aluno tenha saído dessa iniciativa com algo realmente útil, com uma base mais sólida, mais segurança para lidar com instrumentação e, principalmente, uma visão mais clara de como essas técnicas entram na formação.

Ao final, os participantes receberam certificados emitidos pela USP, reconhecendo a formação complementar obtida durante este curso, que teve como professores: Sebastião Pratavieira, Euclydes Marega Junior, Vanderlei Salvador Bagnato e Francisco Eduardo Gontijo Guimarães.

Esta é uma iniciativa que certamente poderá ser realizada anualmente.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

Revisão harmoniza teoria e experimento no cálculo do momento magnético do múon

O enorme ímã supercondutor de quase 15 metros de diâmetro do experimento “Múon g-2” sendo transportado inteiro do Brookhaven National Laboratory para o Fermilab. A operação, apelidada de “The Big Move”, percorreu cerca de 5.100 km em 35 dias, combinando transporte rodoviário noturno e transporte marítimo e fluvial (imagem: Fermilab) (Agência FAPESP)

Artigo assinado por centenas de pesquisadores mostra que a discrepância histórica entre a previsão teórica e os dados experimentais praticamente desapareceu; resultado é fundamental para validação do Modelo Padrão da Física de Partículas

Ao longo dos últimos anos, o chamado “momento magnético anômalo do múon”, representado pela fórmula “g-2”, foi objeto de um intenso debate no campo da física de partículas. Diferenças entre o número medido em laboratório e o calculado no Modelo Padrão foram interpretadas como possíveis sinais de fenômenos ainda desconhecidos, não incorporados pela teoria. Agora, uma revisão internacional, que mobilizou centenas de pesquisadores do mundo todo, concluiu que, com os cálculos e os experimentos atuais, a discrepância praticamente desapareceu, dentro da margem de erro. Artigo a respeito foi publicado no periódico Physics Reports.

“A mensagem mais importante da revisão, que expressa o consenso atual, é que aquela grande discrepância registrada no passado aparentemente não existe, segundo os dados e os cálculos mais recentes. Ainda sobrevivem tensões a serem investigadas, mas os resultados apontam para o acordo entre teoria e experimento”, diz Diogo Boito, do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (IFSC-USP). Com sua aluna Cristiane Yumi Mise London, doutoranda no IFSC-USP, Boito participou da revisão e foi um dos autores do capítulo 4 do artigo.

O múon é uma partícula elementar da classe dos léptons. Esta engloba três partículas eletricamente carregadas e com carga igual a “-1” (o elétron, o múon e o tau) e três partículas neutras (o neutrino do elétron, o neutrino do múon e o neutrino do tau). No contexto terrestre, o múon surge principalmente quando raios cósmicos colidem com núcleos da atmosfera ou em colisões artificiais produzidas em laboratório pelos grandes aceleradores de partículas. Como possui massa cerca de 207 vezes maior do que a do elétron, o múon é instável e decai no elétron por meio da interação fraca. Seu tempo próprio de vida é de aproximadamente 2,2 microssegundos. Porém, pelo fato de viajar em velocidades próximas à da luz, ele sofre o efeito da dilatação do tempo, formulada pela Teoria Especial da Relatividade. De modo que, para o observador externo, seu tempo de vida pode se prolongar por dezenas e até centenas de microssegundos – o suficiente para que um grande número de múons possa atravessar toda a atmosfera e alcançar a superfície da Terra.

Como tem carga elétrica e é dotado de spin, o múon comporta-se como um pequeno ímã – vale dizer que possui um momento magnético, que quantifica sua interação com um campo magnético externo por meio de uma constante conhecida como “g”. O valor teórico do momento magnético no contexto relativístico é obtido a partir da equação de Dirac (formulada pelo físico inglês Paul Dirac, 1902-1984, Prêmio Nobel de Física de 1933, um dos fundadores da mecânica e da eletrodinâmica quânticas) e o resultado é “g = 2”. Porém o momento magnético real nunca tem “g” igual a 2, porque o múon jamais aparece sozinho, mas está sempre rodeado de campos quânticos nos quais todo tipo de partícula pode se manifestar e efetivamente se manifesta.

“O campo magnético não ‘enxerga’ apenas a partícula isolada. Ele ‘enxerga’ toda essa nuvem na qual a partícula se encontra imersa. E nessa nuvem tem de tudo”, afirma Boito. “Por isso, o ‘g-2’, o momento magnético anômalo do múon, constitui um extraordinário recurso para testar o Modelo Padrão. Se a medida de ‘g-2’ obtida experimentalmente e a medida calculada a partir da teoria coincidem, isso representa uma importante validação do Modelo Padrão. Mas se existe uma discrepância entre os dois valores, como parecia existir, a conclusão seria a de que alguma coisa não prevista pelo Modelo Padrão poderia estar ocorrendo”, ele explica.

Essa “coisa não prevista” a que se refere o pesquisador poderia ser matéria escura, outras formas do bóson de Higgs ou, até mesmo, outras forças diferentes das quatro forças conhecidas (gravitacional, eletromagnética, forte e fraca). Em resumo: “coisas” que não estão contempladas pelo Modelo Padrão. “Daí a importância de medir e calcular esse número com extrema precisão”, comenta Boito.

As medições experimentais mais recentes foram realizadas no Fermi National Accelerator Laboratory, o Fermilab, um dos principais laboratórios de física de partículas do mundo, localizado no Estado de Illinois (EUA), em continuidade a medições anteriores feitas no Brookhaven National Laboratory, no Estado de Nova York.

No experimento são utilizados principalmente múons positivos, que são produzidos e colocados para circular em um anel magnético extremamente uniforme, com cerca de 14,2 metros de diâmetro. Enquanto circulam em velocidades próximas à da luz, os múons decaem por interação fraca e produzem pósitrons (elétrons positivos), que escapam da órbita do feixe e atingem os detectores instalados ao redor do anel. Esses pósitrons são emitidos com maior probabilidade na direção e sentido do spin. Se o momento magnético do múon fosse exatamente 2, como manda a teoria, os impactos produzidos nos detectores formariam uma linha contínua de altura invariável. Porém, como existe uma diferença entre o valor real e 2, isto é, o “g-2”, tal fato causa uma precessão do spin, um bamboleio semelhante ao do pião, que faz com que os impactos subam e desçam periodicamente. É exatamente esse sobe e desce que permite medir, com extrema precisão, o valor de “g-2”.

O experimento do Fermilab não é inteiramente novo: ele aproveitou o anel magnético que já existia no Brookhaven. Foi montada uma operação com logística extraordinária para levar o anel inteiro, sem desmontar, de um laboratório a outro. O transporte não foi feito por rodovia, diretamente de Nova York para Illinois. Mas percorreu cerca de 5,1 mil quilômetros em aproximadamente 35 dias, combinando transporte rodoviário noturno em caminhões especiais na saída de Brookhaven e na chegada ao Fermilab, e um longo trecho marítimo e fluvial em barcaça ao longo da costa leste dos Estados Unidos, contornando a Flórida e subindo pelo sistema de rios até Illinois.

Em 2021 e 2023, os primeiros resultados do Fermilab confirmaram os valores obtidos no Brookhaven. E os resultados de 2025, que encerraram o ciclo experimental, alcançaram muito mais precisão, mas não mudaram substancialmente os números anteriores. Ficou claro que os valores experimentais eram muito sólidos. Se havia discrepância com relação aos resultados obtidos a partir da teoria, isso se devia a uma deficiência destes últimos. Foi o que a nova revisão demonstrou. Levando em conta tanto os dados experimentais atualizados quanto avanços significativos nos cálculos teóricos, a revisão concluiu que as diferenças entre teoria e experimento caíram para um nível estatisticamente não significativo. Em outras palavras: com os números atuais, não há evidência que corrobore a necessidade de uma nova física, para além do Modelo Padrão.

Prof. Dr. Diogo Boito (IFSC/USP)

“A dificuldade dos cálculos teóricos se deve ao fato de que a interação do múon com o campo magnético recebe contribuições de todas as partículas previstas pelo Modelo Padrão. Parte dessas contribuições – associada ao elétron, ao fóton e aos bósons eletrofracos – pode ser calculada com métodos analíticos altamente precisos. Por assim dizer, com papel e lápis”, sublinha Boito.

“Porém, mesmo em relação às contribuições que podem ser tratadas analiticamente, como essas determinadas pela eletrodinâmica quântica, o cálculo do ‘g-2’ exige considerar uma série de correções sucessivas. A correção de primeira ordem, associada à troca virtual de um fóton, foi calculada por Julian Schwinger em 1948. Correções de ordens superiores envolvem processos mais complexos, como o fóton transformando-se temporariamente em pares elétron-pósitron antes de ser reabsorvido. À medida que se consideram ordens cada vez mais altas, surgem diagramas com múltiplos pares virtuais, mas cada novo termo contribui progressivamente menos para o resultado final, o que permite que possam ser suprimidos. Ainda assim, para se alcançar a precisão atual, calculada até a quinta ordem, foi necessário um esforço que levou mais de meio século para ser completado.”

“Hoje, o maior desafio está em outro setor, aquele governado pela força forte, que envolve quarks e glúons, os constituintes dos prótons e nêutrons. Essa interação é descrita pela cromodinâmica quântica [QCD, da expressão em inglês quantum chromodynamics], que é uma teoria matematicamente complexa”, afirma Boito. Durante um bom tempo, a estratégia principal para estimar a contribuição dos quarks ao “g-2” foi indireta. Em vez de calculá-la diretamente a partir da QCD, os físicos recorriam a outro método rigoroso, porém baseado em medições experimentais obtidas em aceleradores, nas quais elétrons e pósitrons colidem e se transformam em hádrons. Esses dados de colisões são então inseridos em relações matemáticas que permitem reconstruir a contribuição hadrônica ao “g-2”, sem cálculos fundamentais em QCD, que seriam impraticáveis. Trata-se do chamado “método baseado em dados”, que possibilita contornar as dificuldades matemáticas da QCD, mas que levou a grandes discrepâncias com os dados experimentais de “g-2″.

Uma nova estratégia teórica e recursos computacionais muito mais robustos abriram caminho para a solução do conflito. “Nos últimos anos, ganhou protagonismo uma abordagem chamada de “cromodinâmica quântica na rede”, ou lattice QCD. Nesse método, o espaço-tempo não é tratado como contínuo, mas como um conjunto de pontos discretos formando um reticulado – análogo à rede cristalina de um sólido. Essa discretização transforma o problema teórico em algo que pode ser tratado numericamente: em vez de lidar com as infinitas possibilidades de um espaço-tempo contínuo, os cálculos passam a ocorrer em um volume finito, com espaçamento mínimo entre os pontos. Isso torna viável simular a dinâmica dos quarks e glúons em supercomputadores. O objetivo é aproximar cada vez mais essa rede do espaço-tempo real, reduzindo o espaçamento entre os pontos e aumentando o volume simulado, até que os resultados possam ser extrapolados para o mundo físico”, informa o pesquisador.

Na QCD na rede, não se resolve diretamente uma equação analítica para obter o resultado final. O procedimento é diferente: define-se a intensidade das interações fundamentais entre quarks e glúons, distribuem-se essas partículas sobre o reticulado e deixa-se o sistema evoluir numericamente, segundo as regras da teoria, usando uma técnica estatística conhecida como Método de Monte Carlo (devido aos famosos cassinos daquela cidade).

Vale ressalvar que a descrição popular segundo a qual o múon estaria rodeado por uma “nuvem de partículas virtuais” não é o ponto de partida dos cálculos, mas uma forma posterior de interpretar os resultados. Os físicos começam com expressões rigorosamente quantitativas fornecidas pela teoria quântica de campos e só depois procuram traduzi-las em imagens intuitivas. A noção de nuvem é, portanto, uma metáfora pedagógica para representar uma série de correções calculadas termo a termo, não algo que seja contado diretamente como um número fixo de partículas ao redor do múon.

Para efeito de comparação, o melhor valor experimental obtido para “(g-2)/2” pelo Fermilab foi 0,001165920705±0,000000000148. Pelo método de QCD na rede, chegou-se ao número 0,00116592033±0,00000000062. A diferença entre eles, da ordem de 3,8×10^(-10), não é estatisticamente significativa.

Novas medidas de colisões elétron-pósitron no acelerador VEPP-2000 em Novosibirsk, na Sibéria, feitas pelo experimento CMD-3 em 2023, levam a resultados que, com o “método baseado em dados”, são muito próximos aos obtidos com a “QCD na rede” e em bom acordo com os experimentos de “g-2”. Este resultado difere daqueles anteriormente alcançados com esse método e indica que algumas das medidas de colisões elétron-pósitron mais antigas podem ter algum problema, ou ter sua incerteza subestimada. As medidas anteriores estão sendo cuidadosamente investigadas para que se chegue a um diagnóstico final. E novos experimentos, como o BES-III, na China, continuam medindo colisões elétron-pósitron. No momento, segundo os autores da revisão, os cálculos utilizando “QCD na rede” atingiram um nível de precisão suficiente para que sejam mais confiáveis, substituindo o método anterior na parte mais crítica do cálculo, mas os resultados obtidos com o “método baseado em dados” precisam ser mais bem entendidos para se chegar a um veredito final.

A revisão é fruto de um esforço internacional coordenado, resultante da chamada Muon g-2 Theory Initiative, criada em 2017 para coordenar a comunidade de pesquisadores envolvidos no assunto. O grupo organiza workshops regulares e publica relatórios de consenso – conhecidos como White Papers – reunindo os melhores resultados disponíveis em cada momento. A nova edição incorpora centenas de estudos recentes, revisões metodológicas e atualizações experimentais, além de avanços em ferramentas computacionais. Participam do trabalho instituições da Europa, Ásia, América do Norte e América Latina. O Brasil aparece por meio de pesquisadores ligados ao IFSC-USP.

A participação brasileira foi apoiada pela FAPESP por meio de Auxílio a Jovens Pesquisadores-Fase 2, concedido a Boito; e de bolsas de Doutorado e de Estágio de Pesquisa no Exterior, concedidas a London.

O artigo The anomalous magnetic moment of the muon in the Standard Model: an unpdate pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0370157325002157.

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP

Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

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