
O principal receio do Prof. Pedro Suman não está apenas na complexidade da física, mas na capacidade de fazer com que o aluno perceba por que determinado conhecimento merece ser aprendido
Depois de uma trajetória acadêmica construída entre universidades brasileiras e centros internacionais de pesquisa, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) vê na sala de aula um dos maiores desafios da carreira: despertar nos estudantes o interesse pelo conhecimento e contribuir para uma formação que ultrapasse os limites da profissão.
A carreira de Pedro Henrique Suman foi construída entre salas de aula, laboratórios e diferentes países. Aos 39 anos, natural de Floreal, pequena cidade do interior paulista, ele chega ao Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) trazendo na bagagem uma formação científica marcada por experiências no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e na Alemanha. Mas, é diante dos estudantes que o jovem professor encontra agora um dos desafios que considera mais importantes de sua trajetória – ensinar.
Para Suman, estar diante de uma turma não significa simplesmente transmitir conteúdos de física. Significa despertar interesse, estimular o estudo, mostrar a importância dos conceitos e, sobretudo, participar da formação de outras pessoas.
“Isso é uma missão muito importante, porque a gente está ensinando, está formando outras pessoas”, afirma.
A declaração ajuda a revelar a maneira como o professor compreende a docência neste início de sua trajetória na USP. Há uma preocupação que vai além de cumprir programas ou apresentar fórmulas e conceitos. Suman reconhece que ensinar exige preparação, capacidade de comunicação e, principalmente, disposição para conquistar a atenção de uma geração de estudantes submetida a inúmeros estímulos.
Para ele, motivar talvez seja uma das tarefas mais difíceis da educação contemporânea.
O desafio de despertar o interesse
Ao falar sobre suas primeiras experiências em sala de aula, Suman não esconde o tamanho da responsabilidade que sente. O seu principal receio não está apenas na complexidade da física, mas na capacidade de fazer com que o aluno perceba por que determinado conhecimento merece ser aprendido.
“A sensação é de um desafio muito grande, principalmente nos dias de hoje”, explica. O objetivo, segundo ele, é motivar os estudantes e ajudá-los a compreender a importância dos conceitos para a própria formação.
É justamente aí que aparece com maior força sua visão sobre o papel do professor. Uma boa aula, em sua concepção, precisa ser preparada para transmitir o conteúdo da melhor maneira possível, mas o trabalho não termina quando a matéria é explicada. É preciso provocar curiosidade.
Suman considera que despertar o interesse dos alunos é um desafio compartilhado tanto pelos professores que estão começando quanto pelos mais experientes. Em outras palavras, ensinar pressupõe sempre uma busca permanente por maneiras de aproximar o conhecimento daquele que aprende.

Pedro Suman define o Instituto como um “centro de excelência” e considera um privilégio fazer parte de seu corpo docente
Nesse processo, a docência também se apresenta como uma combinação de exigência e satisfação. Preparar aulas, organizar conteúdos e procurar formas eficientes de transmitir conceitos são tarefas desafiadoras, reconhece o professor, mas também profundamente prazerosas.
Da escola pública aos centros internacionais
A própria história de Suman ajuda a explicar a importância que atribui à formação.

Massachusetts Institute of Technology (Créditos MIT-USA)
Nascido em Floreal, na região de São José do Rio Preto, ele cursou todo o Ensino Fundamental e Médio em escola pública. O interesse pela física ganhou força no final do Ensino Médio, embora inicialmente seu objetivo fosse cursar engenharia elétrica.
A física surgiu, curiosamente, quase como um caminho alternativo. Suman ingressou no curso da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Ilha Solteira, imaginando inicialmente a possibilidade de posteriormente pedir transferência para engenharia. A experiência, porém, mudou seus planos. Ele gostou do curso e decidiu permanecer na física.
Foi o início de uma longa caminhada acadêmica.
Depois da graduação, seguiu para a Unesp de Araraquara, onde realizou mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais e posteriormente o doutorado. Durante essa etapa, viveu uma experiência que considera um divisor de águas: passou um ano no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, durante o doutorado sanduíche.
Vieram depois o pós-doutorado e novas experiências internacionais, incluindo períodos de pesquisa em Portugal, no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL),na cidade de Braga, e na Universidade de Tübingen, na Alemanha. O contato com diferentes instituições, culturas acadêmicas, laboratórios, orientadores e maneiras de trabalhar contribuiu para construir o perfil profissional que hoje procura levar para a USP.
Suman diz ter procurado absorver “as melhores partes” de cada experiência e de cada pessoa com quem trabalhou. O período no MIT, por ter sido sua primeira experiência internacional, ocupa um lugar especial nessa trajetória.
A chegada à USP
Depois do pós-doutorado, encerrado no início de 2023, começou uma nova etapa: a busca por uma posição como professor.

Universidade de Tübingen – Alemanha (Créditos Universität Tübingen)
Suman atuou como professor substituto na Unesp de Araraquara, em 2024, e em Jaboticabal, em 2025, ministrando disciplinas de física para estudantes de cursos como química, engenharia química, biologia e zootecnia. Após participar de concursos, surgiu a oportunidade de ingressar na USP.
Foi aprovado em seu primeiro concurso na Universidade e passou a integrar o corpo docente do Instituto de Física de São Carlos.
A chegada ao IFSC/USP representa para ele mais do que uma conquista profissional. Suman define o Instituto como um “centro de excelência” e considera um privilégio fazer parte de seu corpo docente.
Agora, enquanto estrutura projetos de pesquisa, busca recursos, planeja seu laboratório e procura atrair estudantes para sua linha de investigação, também constrói sua identidade como professor.
E é justamente a docência que acrescenta uma dimensão humana particular a uma carreira fortemente marcada pela pesquisa científica.
Conhecimento que precisa ser compartilhado
Sua experiência internacional deverá contribuir também para a pesquisa desenvolvida em São Carlos. Suman pretende implementar conhecimentos adquiridos especialmente durante o período que passou na Alemanha, trabalhando com técnicas avançadas relacionadas a sensores de gases e materiais nanoestruturados.
As possíveis aplicações alcançam áreas diretamente ligadas à vida cotidiana, particularmente saúde e agricultura.

Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia – Braga/Portugal (Créditos INL)
Entre os exemplos citados pelo pesquisador estão sensores portáteis capazes de analisar substâncias presentes no hálito e dispositivos voltados ao monitoramento das condições do solo e à agricultura de precisão. A intenção é aproximar pesquisa científica, inovação e benefícios concretos para a sociedade.
Mas a mesma lógica que orienta sua pesquisa aparece também na sala de aula: conhecimento só alcança plenamente sua finalidade quando consegue transformar pessoas e produzir novas possibilidades.
Por isso, ao falar sobre seus alunos, Suman não se limita à preocupação de formar bons profissionais ou futuros pesquisadores. Sua visão de educação é mais abrangente.
Formar profissionais — e cidadãos
Quando convidado a deixar uma mensagem aos seus estudantes de graduação, o professor escolhe uma palavra central – formação.
“Meu conselho é que os jovens invistam intensamente na formação, isso porque acredito que uma boa formação pode proporcionar melhores perspectivas para o futuro’, sublinha. Suman reconhece que, para aqueles que pretendem seguir a carreira acadêmica, o percurso pode ser longo e exigente. Mestrado, doutorado e pós-doutorado representam anos de dedicação e, muitas vezes, renúncias. Ele próprio percorreu esse caminho.

Ensinar não é apenas transmitir aquilo que se sabe. “É despertar nos outros a vontade de aprender, ajudá-los a compreender o valor do conhecimento e oferecer instrumentos para que construam seus próprios caminhos”
Mas, a formação defendida pelo professor não termina na especialização profissional. Ao contrário, Suman chama a atenção para a necessidade de aproveitar a universidade para construir algo mais amplo: uma formação como cidadão. “Não ser apenas formado em determinado assunto, mas ter uma formação mais de cidadão mesmo, ter uma formação mais completa”, aconselha o docente.
É uma mensagem que sintetiza sua maneira de compreender a missão de ensinar.
O professor que saiu de uma escola pública de uma pequena cidade do interior paulista, passou por diferentes universidades e laboratórios do mundo e hoje inicia uma nova etapa no IFSC/USP parece trazer para a sala de aula uma convicção construída ao longo de toda essa caminhada: ensinar não é apenas transmitir aquilo que se sabe. É despertar nos outros a vontade de aprender, ajudá-los a compreender o valor do conhecimento e oferecer instrumentos para que construam seus próprios caminhos.
Na USP, Pedro Suman começa agora a escrever essa nova parte de sua história. Uma trajetória na qual pesquisa e ensino caminham juntos, mas em que a sala de aula assume uma responsabilidade especial: a de transformar conhecimento acumulado ao longo de anos em oportunidade para uma nova geração.
Porque, no final, como reconhece o próprio docente, ensinar significa algo muito maior do que explicar física – significa formar pessoas.
Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP