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Pedro Suman inicia trajetória na USP com a missão de formar novos profissionais e cidadãos – A nova geração de docentes do IFSC/USP

O principal receio do Prof. Pedro Suman não está apenas na complexidade da física, mas na capacidade de fazer com que o aluno perceba por que determinado conhecimento merece ser aprendido

Depois de uma trajetória acadêmica construída entre universidades brasileiras e centros internacionais de pesquisa, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) vê na sala de aula um dos maiores desafios da carreira: despertar nos estudantes o interesse pelo conhecimento e contribuir para uma formação que ultrapasse os limites da profissão.

A carreira de Pedro Henrique Suman foi construída entre salas de aula, laboratórios e diferentes países. Aos 39 anos, natural de Floreal, pequena cidade do interior paulista, ele chega ao Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) trazendo na bagagem uma formação científica marcada por experiências no Brasil, nos Estados Unidos, em Portugal e na Alemanha. Mas, é diante dos estudantes que o jovem professor encontra agora um dos desafios que considera mais importantes de sua trajetória – ensinar.

Para Suman, estar diante de uma turma não significa simplesmente transmitir conteúdos de física. Significa despertar interesse, estimular o estudo, mostrar a importância dos conceitos e, sobretudo, participar da formação de outras pessoas.

“Isso é uma missão muito importante, porque a gente está ensinando, está formando outras pessoas”, afirma.

A declaração ajuda a revelar a maneira como o professor compreende a docência neste início de sua trajetória na USP. Há uma preocupação que vai além de cumprir programas ou apresentar fórmulas e conceitos. Suman reconhece que ensinar exige preparação, capacidade de comunicação e, principalmente, disposição para conquistar a atenção de uma geração de estudantes submetida a inúmeros estímulos.

Para ele, motivar talvez seja uma das tarefas mais difíceis da educação contemporânea.

O desafio de despertar o interesse

Ao falar sobre suas primeiras experiências em sala de aula, Suman não esconde o tamanho da responsabilidade que sente. O seu principal receio não está apenas na complexidade da física, mas na capacidade de fazer com que o aluno perceba por que determinado conhecimento merece ser aprendido.

“A sensação é de um desafio muito grande, principalmente nos dias de hoje”, explica. O objetivo, segundo ele, é motivar os estudantes e ajudá-los a compreender a importância dos conceitos para a própria formação.

É justamente aí que aparece com maior força sua visão sobre o papel do professor. Uma boa aula, em sua concepção, precisa ser preparada para transmitir o conteúdo da melhor maneira possível, mas o trabalho não termina quando a matéria é explicada. É preciso provocar curiosidade.

Suman considera que despertar o interesse dos alunos é um desafio compartilhado tanto pelos professores que estão começando quanto pelos mais experientes. Em outras palavras, ensinar pressupõe sempre uma busca permanente por maneiras de aproximar o conhecimento daquele que aprende.

Pedro Suman define o Instituto como um “centro de excelência” e considera um privilégio fazer parte de seu corpo docente

Nesse processo, a docência também se apresenta como uma combinação de exigência e satisfação. Preparar aulas, organizar conteúdos e procurar formas eficientes de transmitir conceitos são tarefas desafiadoras, reconhece o professor, mas também profundamente prazerosas.

Da escola pública aos centros internacionais

A própria história de Suman ajuda a explicar a importância que atribui à formação.

Massachusetts Institute of Technology (Créditos MIT-USA)

Nascido em Floreal, na região de São José do Rio Preto, ele cursou todo o Ensino Fundamental e Médio em escola pública. O interesse pela física ganhou força no final do Ensino Médio, embora inicialmente seu objetivo fosse cursar engenharia elétrica.

A física surgiu, curiosamente, quase como um caminho alternativo. Suman ingressou no curso da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Ilha Solteira, imaginando inicialmente a possibilidade de posteriormente pedir transferência para engenharia. A experiência, porém, mudou seus planos. Ele gostou do curso e decidiu permanecer na física.

Foi o início de uma longa caminhada acadêmica.

Depois da graduação, seguiu para a Unesp de Araraquara, onde realizou mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais e posteriormente o doutorado. Durante essa etapa, viveu uma experiência que considera um divisor de águas: passou um ano no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, durante o doutorado sanduíche.

Vieram depois o pós-doutorado e novas experiências internacionais, incluindo períodos de pesquisa em Portugal, no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL),na cidade de Braga, e na Universidade de Tübingen, na Alemanha. O contato com diferentes instituições, culturas acadêmicas, laboratórios, orientadores e maneiras de trabalhar contribuiu para construir o perfil profissional que hoje procura levar para a USP.

Suman diz ter procurado absorver “as melhores partes” de cada experiência e de cada pessoa com quem trabalhou. O período no MIT, por ter sido sua primeira experiência internacional, ocupa um lugar especial nessa trajetória.

A chegada à USP

Depois do pós-doutorado, encerrado no início de 2023, começou uma nova etapa: a busca por uma posição como professor.

Universidade de Tübingen – Alemanha (Créditos Universität Tübingen)

Suman atuou como professor substituto na Unesp de Araraquara, em 2024, e em Jaboticabal, em 2025, ministrando disciplinas de física para estudantes de cursos como química, engenharia química, biologia e zootecnia. Após participar de concursos, surgiu a oportunidade de ingressar na USP.

Foi aprovado em seu primeiro concurso na Universidade e passou a integrar o corpo docente do Instituto de Física de São Carlos.

A chegada ao IFSC/USP representa para ele mais do que uma conquista profissional. Suman define o Instituto como um “centro de excelência” e considera um privilégio fazer parte de seu corpo docente.

Agora, enquanto estrutura projetos de pesquisa, busca recursos, planeja seu laboratório e procura atrair estudantes para sua linha de investigação, também constrói sua identidade como professor.

E é justamente a docência que acrescenta uma dimensão humana particular a uma carreira fortemente marcada pela pesquisa científica.

Conhecimento que precisa ser compartilhado

Sua experiência internacional deverá contribuir também para a pesquisa desenvolvida em São Carlos. Suman pretende implementar conhecimentos adquiridos especialmente durante o período que passou na Alemanha, trabalhando com técnicas avançadas relacionadas a sensores de gases e materiais nanoestruturados.

As possíveis aplicações alcançam áreas diretamente ligadas à vida cotidiana, particularmente saúde e agricultura.

Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia – Braga/Portugal (Créditos INL)

Entre os exemplos citados pelo pesquisador estão sensores portáteis capazes de analisar substâncias presentes no hálito e dispositivos voltados ao monitoramento das condições do solo e à agricultura de precisão. A intenção é aproximar pesquisa científica, inovação e benefícios concretos para a sociedade.

Mas a mesma lógica que orienta sua pesquisa aparece também na sala de aula: conhecimento só alcança plenamente sua finalidade quando consegue transformar pessoas e produzir novas possibilidades.

Por isso, ao falar sobre seus alunos, Suman não se limita à preocupação de formar bons profissionais ou futuros pesquisadores. Sua visão de educação é mais abrangente.

Formar profissionais — e cidadãos

Quando convidado a deixar uma mensagem aos seus estudantes de graduação, o professor escolhe uma palavra central – formação.

“Meu conselho é que os jovens invistam intensamente na formação, isso porque acredito que uma boa formação pode proporcionar melhores perspectivas para o futuro’, sublinha. Suman reconhece que, para aqueles que pretendem seguir a carreira acadêmica, o percurso pode ser longo e exigente. Mestrado, doutorado e pós-doutorado representam anos de dedicação e, muitas vezes, renúncias. Ele próprio percorreu esse caminho.

Ensinar não é apenas transmitir aquilo que se sabe. “É despertar nos outros a vontade de aprender, ajudá-los a compreender o valor do conhecimento e oferecer instrumentos para que construam seus próprios caminhos”

Mas, a formação defendida pelo professor não termina na especialização profissional. Ao contrário, Suman chama a atenção para a necessidade de aproveitar a universidade para construir algo mais amplo: uma formação como cidadão. “Não ser apenas formado em determinado assunto, mas ter uma formação mais de cidadão mesmo, ter uma formação mais completa”, aconselha o docente.

É uma mensagem que sintetiza sua maneira de compreender a missão de ensinar.

O professor que saiu de uma escola pública de uma pequena cidade do interior paulista, passou por diferentes universidades e laboratórios do mundo e hoje inicia uma nova etapa no IFSC/USP parece trazer para a sala de aula uma convicção construída ao longo de toda essa caminhada: ensinar não é apenas transmitir aquilo que se sabe. É despertar nos outros a vontade de aprender, ajudá-los a compreender o valor do conhecimento e oferecer instrumentos para que construam seus próprios caminhos.

Na USP, Pedro Suman começa agora a escrever essa nova parte de sua história. Uma trajetória na qual pesquisa e ensino caminham juntos, mas em que a sala de aula assume uma responsabilidade especial: a de transformar conhecimento acumulado ao longo de anos em oportunidade para uma nova geração.

Porque, no final, como reconhece o próprio docente, ensinar significa algo muito maior do que explicar física – significa formar pessoas.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

Com participação de alunos de IC do IFSC/USP – Pesquisa usa inteligência artificial para estudar peixes elétricos

Pesquisador Prof. Dr. Reynaldo Pinto (IFSC/USP)

Trabalho publicado em revista internacional combina inteligência artificial, reconstrução tridimensional e sinais elétricos produzidos pelos animais; quatro dos autores são estudantes de Iniciação Científica do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), bolsistas do Programa Unificado de Bolsas da USP, supervisionados pelo Prof. Dr. Reynaldo Pinto

Uma pesquisa desenvolvida com participação do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) está utilizando inteligência artificial e modelos computacionais para compreender, com precisão inédita, como peixes elétricos se movimentam e como os sinais produzidos pelo próprio organismo desses animais se modificam de acordo com sua posição no ambiente.

O estudo ganhou destaque também pela participação direta de jovens pesquisadores em formação. Quatro dos autores são estudantes de Iniciação Científica do IFSC/USP, com bolsas do Programa Unificado de Bolsas da Universidade de São Paulo (PUB-USP) – Felipe Mota, Helena Pessoni Figueiredo, Rafael Seixas e Carlos de Aquino -, e desenvolveram suas atividades sob a supervisão do Prof. Dr. Reynaldo D. Pinto, do Laboratório de Neurobiofísica do Instituto.

O trabalho foi publicado na revista científica internacional “Frontiers in Computational Neuroscience” e apresenta uma metodologia que combina câmeras, inteligência artificial, registros dos sinais elétricos dos peixes e modelos computacionais. O objetivo é criar novas maneiras de acompanhar o comportamento desses animais sem interferir em sua movimentação natural.

Um animal que “enxerga” o ambiente por meio da eletricidade

Os pesquisadores trabalharam com o Gymnotus carapo, espécie de peixe elétrico capaz de produzir pequenas descargas elétricas. Diferentemente de espécies conhecidas por gerar descargas fortes para defesa ou ataque, esses peixes utilizam seus sinais elétricos principalmente como uma espécie de sistema sensorial.

O campo elétrico produzido ao redor do corpo permite que o animal obtenha informações sobre o ambiente, localize objetos, encontre alimento e se comunique com outros indivíduos.

Estudar esse comportamento, porém, apresenta dificuldades. Muitas espécies de peixes elétricos têm hábitos noturnos, e a iluminação utilizada para filmá-las pode alterar justamente o comportamento que os cientistas pretendem observar. Além disso, acompanhar com precisão um animal que se desloca livremente nas três dimensões dentro da água representa um desafio técnico considerável.

A equipe procurou enfrentar esse problema reunindo diferentes tecnologias em um mesmo experimento.

O peixe foi colocado em um tanque com profundidade suficiente para permitir movimentos tridimensionais. Câmeras posicionadas ao redor do ambiente registraram seus deslocamentos, enquanto eletrodos captaram os sinais elétricos produzidos pelo animal.

A partir dessas imagens, algoritmos de aprendizado profundo — uma das áreas da inteligência artificial — permitiram reconstruir digitalmente a posição e a postura do peixe em três dimensões. O sistema alcançou precisão espacial de aproximadamente 0,8 milímetro por coordenada, permitindo acompanhar detalhadamente os movimentos do animal.

Do movimento ao campo elétrico

A etapa seguinte consistiu em relacionar a posição do corpo do peixe com os sinais elétricos registrados pelos sensores.

Os pesquisadores criaram e compararam diferentes modelos computacionais para representar como as cargas elétricas se distribuem ao longo do órgão responsável pelas descargas. Dessa forma, foi possível simular o campo elétrico produzido pelo peixe enquanto ele nadava e comparar as previsões dos computadores com aquilo que os eletrodos realmente haviam registrado.

Os resultados mostraram que um modelo que considera uma distribuição de cargas mais próxima das características biológicas do animal reproduziu melhor os dados experimentais do que representações mais simples tradicionalmente utilizadas.

Além de contribuir para o conhecimento sobre os mecanismos utilizados pelos peixes elétricos, a metodologia abre uma perspectiva particularmente interessante: no futuro, poderá ser possível acompanhar a posição e os movimentos desses animais utilizando principalmente os próprios sinais elétricos que eles produzem, reduzindo ou até eliminando a necessidade de câmeras em determinadas situações.

Estudo do “Gymnotus carapo”, espécie de peixe elétrico capaz de produzir descargas elétricas

Essa possibilidade é especialmente importante para pesquisas realizadas em ambientes escuros, profundos ou com água turva, nos quais a observação por imagens é difícil. Os dados obtidos neste trabalho representam um primeiro passo para o treinamento de sistemas de aprendizado de máquina capazes de reconstruir tridimensionalmente os movimentos dos peixes a partir das informações elétricas.

Ciência que também forma novos pesquisadores

Outro aspecto relevante do trabalho está na formação científica proporcionada aos estudantes do IFSC/USP. A participação de quatro alunos de Iniciação Científica, apoiados por bolsas PUB e supervisionados pelo Prof. Reynaldo Pinto, mostra como programas destinados a estudantes de graduação podem inseri-los em pesquisas de fronteira e levá-los a participar diretamente da produção de conhecimento científico publicado internacionalmente.

Max Planck Institute for Human Development (Berlim – Alemanha)

O próprio artigo registra contribuições dos jovens pesquisadores em diferentes etapas do projeto, incluindo desenvolvimento de programas de computador, metodologia, validação dos resultados, visualização dos dados, investigação e participação na elaboração do manuscrito científico. O professor Reynaldo Pinto, por sua vez, aparece no trabalho com atuação que inclui concepção da pesquisa, metodologia, investigação, desenvolvimento de software, obtenção de recursos, administração do projeto e supervisão, além da redação e revisão do artigo.

O artigo tem como autores Reynaldo D. Pinto, Caroline G. Forlim, Felipe O. L. da Mota, Helena Pessoni-Figueiredo, Rafael Seixas, Carlos H. M. de Aquino, Lírio O. B. de Almeida, Pablo Varona e Francisco B. Rodriguez. Seis deles, além de Reynaldo Pinto, aparecem vinculados ao Laboratório de Neurobiofísica do IFSC/USP; a colaboração internacional envolve ainda pesquisadores do Max Planck Institute for Human Development, em Berlim, e da Universidad Autónoma de Madrid.

O apoio institucional à formação dos estudantes aparece formalmente registrado na publicação. O estudo recebeu financiamento do Programa Unificado de Bolsas da Universidade de São Paulo (PUB-USP), por meio dos projetos de 2024 voltados à pesquisa em Biofísica e Neuroetologia e à produção de vídeos de experimentos para divulgação de conceitos de Neurobiofísica e Neurociência. O trabalho contou ainda com apoio do CNPq, da FAPESP e do Ministério da Ciência e Inovação da Espanha.

Para o Prof. Reynaldo Daniel Pinto, que assina o artigo científico como pesquisador correspondente, a ideia de fazer este trabalho que existia há anos, apareceu em 2010 durante o doutorado sanduíche de Caroline Forlim com colaboradores espanhóis. “Tivemos que aguardar porque a execução dependia de tecnologias que ainda não estavam disponíveis na época. A oportunidade ocorreu junto com o primeiro projeto de iniciação científica dos quatro estudantes que ingressaram no laboratório em 2024 e que assinam este artigo, ainda no terceiro semestre da graduação. Nossa pesquisa é multidisciplinar e eles atuaram de forma integral em todas as etapas: desde o cuidado dos peixes no biotério, à concepção e preparação da arena de filmagem e à construção dos amplificadores não lineares, até à reconstrução cinemática 3D do Gymnotus carapo, a análise e simulação do campo elétrico, as discussões com os colaboradores internacionais, a preparação do artigo e a elaboração da réplica aos revisores”, destaca o docente. O experimento exigiu a

Universidad Autónoma de Madrid (Espanha)

aplicação prática imediata de conceitos de disciplinas básicas — como o uso do eletromagnetismo na análise da fisiologia das descargas elétricas e a mudança de bases vetoriais na calibração do sistema de múltiplas câmeras. À medida que o projeto avançava, as tarefas foram revelando as afinidades pessoais. “A Helena descobriu sua paixão pela eletrônica, o Carlos destacou-se nas montagens elétricas, o Felipe assumiu o sistema de câmeras e os algoritmos computacionais de rastreamento, usando deep learning, e o Rafael voltou-se para a teoria e simulação dos campos elétricos na água. Todos se envolveram nas discussões organizadas a partir da Alemanha, pela Caroline. Em suma, engajar alunos de graduação em uma pesquisa de fronteira na área multidisciplinar de neurociências, com colaboração internacional, revelou-se uma experiência extremamente enriquecedora para todos os envolvidos”, comemora o pesquisador.

Tecnologia inspirada na natureza

As aplicações da pesquisa podem ultrapassar o estudo do comportamento animal. Segundo os pesquisadores, o conhecimento adquirido sobre a forma como os peixes produzem e utilizam campos elétricos também poderá contribuir para o desenvolvimento de sistemas artificiais de localização inspirados na natureza.

A metodologia poderá ainda ser adaptada para estudar vários animais simultaneamente e outras espécies de peixes elétricos, ampliando as possibilidades de investigação de comportamentos sociais em condições mais próximas das encontradas na natureza.

Ao integrar neurociência, física, inteligência artificial, computação e biologia, o estudo mostra como tecnologias avançadas podem revelar aspectos do comportamento animal que antes eram extremamente difíceis de observar. Ao mesmo tempo, a presença de estudantes de graduação entre os autores evidencia outro resultado importante: a Iniciação Científica pode colocar jovens pesquisadores não apenas em contato com a ciência, mas como participantes efetivos de pesquisas internacionais de ponta.

O artigo, intitulado “Integrating deep learning 3D tracking and biophysical EOD modeling for precise, noninvasive computational neuroethology in freely swimming weakly electric fish”, foi publicado em 24 de junho de 2026, no volume 20 da Frontiers in Computational Neuroscience (VER AQUI).

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

Malária – Novos compostos abrem caminho para medicamentos contra formas resistentes da doença

 

(Créditos – Brasil Escola – UOL)

 

Estudo envolvendo pesquisadores do Brasil e do exterior testou 18 novas moléculas e identificou candidato capaz de eliminar o parasita da malária em experimentos de laboratório e proteger animais infectados

A busca por novos medicamentos contra a malária ganhou candidatos promissores. Um estudo publicado em maio deste ano na revista ACS Infectious Diseases avaliou 18 novas moléculas derivadas de substâncias já conhecidas por sua ação contra a doença. Alguns dos compostos conseguiram combater, inclusive, formas do parasita resistentes a medicamentos e apresentaram resultados positivos em amostras provenientes da Amazônia brasileira e em testes com animais.

A pesquisa, apoiada pela FAPESP, CNPq e CAPES, e liderada pelo docente e pesquisador do IFSC/USP, Prof. Dr.  Rafael Victorio Carvalho Guido e por Sean Ekins (Collaborations Pharmaceuticals, Inc. – USA), autores correspondentes do artigo científico publicado sobre o tema na revista acima mencionada, procura responder a um dos principais desafios atuais no controle da malária: a capacidade do parasita de desenvolver resistência aos medicamentos disponíveis. Segundo o artigo, foram estimados mais de 282 milhões de casos da doença e 610 mil mortes em 2024. Embora mosquiteiros tratados com inseticidas, medicamentos e vacinas tenham ampliado as possibilidades de prevenção e tratamento, a resistência aos remédios continua sendo uma ameaça.

Os pesquisadores partiram de estruturas químicas presentes em medicamentos já utilizados ou estudados contra a malária, como a pironaridina e a quinacrina. A estratégia foi modificar essas estruturas para encontrar moléculas que fossem mais eficientes contra o parasita e, ao mesmo tempo, apresentassem menor potencial de causar danos às células humanas. Dos 18 compostos produzidos, vários apresentaram forte atividade contra o Plasmodium falciparum, responsável pelas formas mais graves da malária.

(Créditos – “Anopheles” – CRF-GO)

Um dos destaques foi a molécula identificada no estudo como 2d. Nos experimentos, ela mostrou ação rápida contra o parasita e também foi eficaz contra amostras de Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax coletadas de pacientes na região de Porto Velho, em Rondônia, uma região endêmica para malária no Brasil. Os resultados obtidos com essas amostras foram semelhantes aos observados anteriormente em parasitas mantidos em laboratório.

Os pesquisadores também procuraram descobrir como essa molécula consegue matar o parasita. As evidências indicam que o composto 2d se concentra próximo de uma estrutura utilizada pelo Plasmodium para processar componentes do sangue humano.

Nesse processo, o parasita precisa neutralizar uma substância que, se permanecer livre, torna-se tóxica para ele. O novo composto parece impedir essa neutralização, fazendo com que material tóxico se acumule e prejudique o próprio parasita.

Outra molécula, denominada 5a, apresentou um comportamento diferente. Em vez de agir rapidamente, ela interfere no sistema utilizado pelo parasita para produzir a energia necessária à sua sobrevivência. Os resultados indicam que sua ação ocorre de maneira semelhante à da atovaquona, medicamento já empregado contra a malária. Isso mostra que moléculas quimicamente relacionadas podem atacar o parasita por caminhos diferentes — característica importante para a criação de novas estratégias terapêuticas.

O estudo mostrou ainda que o composto 5a teve seu efeito reforçado quando combinado com proguanil, outro medicamento contra a malária. Para os autores, essa descoberta abre a possibilidade de investigar derivados dessa molécula como futuras alternativas para prevenção da doença. Entretanto, os testes também mostraram que o parasita conseguiu desenvolver resistência ao 5a em laboratório, indicando que ainda serão necessários novos estudos antes que uma molécula desse tipo possa avançar como candidata a medicamento.

Resultado chama atenção em animais

Um dos resultados mais expressivos ocorreu nos testes realizados com camundongos infectados pelo parasita da malária. O composto 2d conseguiu eliminar os parasitas detectáveis no sangue dos animais tratados, resultado comparável ao obtido com medicamentos utilizados como referência no experimento. A sobrevivência dos animais também foi semelhante à observada nos grupos que receberam esses tratamentos de comparação.

Prof. Dr. Rafael Guido (IFSC/USP)

O artigo informa ainda que os animais tratados com 2d alcançaram 100% de sobrevivência após 30 dias, reforçando o potencial da molécula para continuar sendo investigada.

Outro aspecto considerado importante pelos pesquisadores foi a resistência. Nas tentativas realizadas em laboratório, eles não conseguiram produzir parasitas resistentes ao composto 2d, o que sugere uma menor facilidade para o desenvolvimento de resistência. O resultado, entretanto, não significa que isso jamais possa ocorrer e deverá ser confirmado em estudos posteriores. Já com o composto 5a foi possível selecionar parasitas resistentes.

Da bancada ao medicamento ainda há um longo caminho a percorrer

Apesar dos resultados animadores, os compostos estudados ainda não são medicamentos disponíveis para pacientes. A pesquisa representa uma etapa inicial do desenvolvimento de novos tratamentos. Os experimentos envolveram parasitas cultivados em laboratório, amostras obtidas em campo e modelos animais. Antes de uma eventual utilização em seres humanos, candidatos como o 2d precisarão passar por novas etapas para demonstrar segurança, eficácia e comportamento adequado no organismo.

O trabalho também avaliou características que ajudam a determinar se uma molécula tem condições de se transformar futuramente em medicamento. Para o composto 2d, por exemplo, foram observadas propriedades favoráveis em alguns testes, mas também aspectos que precisarão ser aprimorados durante o desenvolvimento.

A importância da pesquisa está justamente em ampliar o número de caminhos disponíveis para enfrentar um parasita que continuamente encontra maneiras de escapar dos medicamentos.

Ao identificar moléculas que atacam o Plasmodium de formas diferentes e que permanecem ativas contra algumas linhagens resistentes, os pesquisadores criam novos pontos de partida para o desenvolvimento de terapias.

Os autores concluem que os compostos mais promissores apresentaram atividade contra formas resistentes de P. falciparum, funcionaram contra amostras brasileiras de P. falciparum e P. vivax e produziram resultados positivos em animais. O conjunto das descobertas poderá orientar o desenvolvimento de uma nova geração de candidatos a medicamentos contra a malária.

Acesse AQUI o original do artigo científico relativo a esta pesquisa.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

Destaque da produção científica do IFSC/USP em agosto de 2026

Para ter acesso às atualizações da Produção Científica cadastradas no mês de agosto de 2026, clique AQUI, ou acesse o Repositório da Produção USP (AQUI)

As atualizações também podem ser conferidas no Totem “Conecta Biblio”, em frente à Biblioteca.

A figura ilustrativa foi extraída do artigo publicado recentemente, por pesquisador do IFSC/USP, no periódico “Biosensors and Bioelectronics” (VER AQUI).

 

 

 

Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

IFSC EM PROL DA SOCIEDADE

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