
Profª Drª Krissia de Zawadzki – Formação acadêmica e quatro pós-doutorados
Krissia de Zawadzki (38) faz parte do grupo chamado “prata da casa” do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), tendo começado como simples aluna de graduação e se transformado em uma das mais respeitadas professoras do Instituto. O interesse da Profª Krissia pelas ciências exatas começou muito antes de seu ingresso na universidade. Ainda no ensino fundamental, ela já tinha a certeza de que seguiria a carreira docente. Na época, porém, os seus planos estavam voltados para a Matemática. Preparava-se para prestar vestibular para uma licenciatura na área e alimentava o sonho de se tornar professora da disciplina.
A mudança aconteceu em 2003, quando Krissia estava na oitava série do ensino fundamental. Um professor de Matemática, que também ministrava aulas de Física no ensino médio supletivo, percebeu sua facilidade com os números e convidou-a para acompanhar uma de suas aulas.
O convite – aparentemente simples – alterou completamente os seus planos profissionais. Depois daquele primeiro contacto com a Física, a jovem estudante ficou fascinada pela disciplina. O interesse foi tão intenso que a antiga intenção de cursar Matemática deu lugar a uma nova convicção – seria professora de Física.
A decisão também foi influenciada pelas dificuldades encontradas na escola pública em que estudava. Durante o ensino médio, Krissia não teve um professor fixo de Física. As aulas eram frequentemente ministradas por profissionais substitutos, o que dificultava a continuidade do aprendizado. Nos três anos do ensino médio, apenas dois professores formados em Física puderam acompanhar a turma por algumas semanas. As aulas desses professores também foram decisivas para influenciá-la.
Diante daquela realidade, a jovem concluiu que a falta de docentes especializados não deveria apenas ser lamentada, mas, acima de tudo, enfrentada.
Aos 15 anos, já afirmava que se tornaria professora de Física justamente por ter verificado que havia poucos profissionais disponíveis para ensinar a disciplina. Naquele momento, a ausência de professores transformou-se numa motivação pessoal e num projeto de vida.
Mudança para o interior de São Paulo e dificuldades acrescidas
Nascida e criada na cidade de São Paulo, Krissia enfrentou ainda na infância uma mudança profunda em sua vida familiar. Seu pai faleceu quando ela tinha oito anos, pelo que dois anos depois, diante das dificuldades econômicas e do elevado custo de vida na capital paulista, a família decidiu mudar-se para Araras, no interior do estado, onde passou a morar com uma tia. Dessa forma, a mudança não representou apenas uma alteração de endereço.
Foi em Araras que Krissia chegou à adolescência e cursou o ensino médio. Desde cedo, sabia que não teria condições de pagar uma faculdade particular. Por isso, ingressar numa universidade pública era a única possibilidade real de continuar os estudos.
Como vários de seus professores tinham sido formados pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), ela passou a considerar a instituição como o destino mais provável. Acreditava que cursaria Licenciatura em Física no campus de Rio Claro e já se preparava para prestar o vestibular.

Krissia de Zawadzki ingressou como professora universitária aos 35 anos e embora já tivesse experiência em pesquisa, pós-doutorados internacionais e contacto com alunos, assumir a responsabilidade por turmas e projetos próprios revelou-se mais desafiante do que imaginava
A possibilidade de estudar no campus de São Carlos, da Universidade de São Paulo, surgiu por influência de sua irmã gêmea, que desejava cursar Química e descobriu o Instituto de Química numa “cidade vizinha”, pois o campus de São Paulo também não era viável para ambas. A ideia de as duas estudarem na mesma cidade também parecia vantajosa, pois permitiria dividir despesas e enfrentar juntas os desafios de uma nova vida – a vida universitária.
Até então, a jovem Krissia pouco conhecia sobre os cursos oferecidos em São Carlos. Na escola em que estudava, o ingresso numa universidade pública não era um plano para a maioria dos alunos. A professora comenta que, naquela época, parecia haver um sentimento coletivo de que a aprovação na USP era praticamente impossível sem um cursinho. Mesmo diante dessa sensação de que a universidade estava distante de sua realidade, as duas decidiram tentar a empreitada na USP.
Formação acadêmica e quatro pós-doutorados
Depois de ingressar no Bacharelado em Física Computacional, Krissia iniciou uma longa trajetória de formação acadêmica. Concluiu a graduação e prosseguiu os estudos no mestrado e no doutorado. A carreira científica levou-a também a realizar quatro estágios de pós-doutorado, alguns deles em importantes centros internacionais de investigação.
Em 2018, mudou-se para Boston, nos Estados Unidos, após conquistar uma bolsa na Schlumberger Foundation destinada a mulheres cientistas provenientes de países em desenvolvimento. O programa oferecia apoio para que pesquisadoras realizassem doutorado ou pós-doutorado fora de seus países de origem. A bolsa permitiu que Krissia permanecesse durante dois anos em Boston e trabalhasse num grupo de investigação com o qual desejava colaborar havia algum tempo. A experiência representou a concretização de uma oportunidade acadêmica importante, além do reconhecimento de seu percurso como mulher na ciência.
Em 2020, regressou ao Brasil e iniciou outro pós-doutorado, dessa vez no International Centre for Theoretical Physics (ICTP), na UNESP. O período, porém, coincidiu com o início da pandemia de Covid-19, quando universidades, laboratórios e grupos de investigação ainda procuravam adaptar-se às restrições e às incertezas daquele momento.
A pandemia também alterou os planos de retorno permanente ao Brasil. Por razões familiares, Krissia precisou se realocar para Londres e lá iniciou um pós-doutorado na Royal Holloway University of London.
Já com a situação se acalmando no mundo, Krissia pôde repensar sua trajetória. No final de 2022 ela recebeu uma oferta de pós-doutorado em um reconhecido grupo de termodinâmica quântica e computação quântica do Trinity College Dublin, na Irlanda, e lá permaneceu aproximadamente um ano e meio antes de regressar ao Brasil.
Paixão pela pesquisa começou na iniciação científica
A decisão de seguir a carreira universitária foi motivada principalmente pela paixão pela pesquisa. Krissia descobriu esse interesse durante a iniciação científica, ainda na graduação. O primeiro projeto desenvolvido por ela não estava relacionado à Física Quântica, área em que mais tarde se especializou. Naquele período, trabalhou com neurociência computacional e reconhecimento de padrões. A experiência permitiu-lhe compreender o funcionamento da pesquisa acadêmica e despertou o desejo de continuar a investigar problemas científicos.
Ao mesmo tempo, o gosto pelo ensino já fazia parte de sua vida. Desde o ensino fundamental e médio, Krissia dava aulas particulares aos colegas. A combinação entre o prazer de ensinar e o entusiasmo pela investigação fez com que a carreira universitária surgisse como um caminho natural, enquanto outro fator teve peso significativo em sua decisão: a baixa presença de mulheres entre os professores e pesquisadores da área.

Física Quântica – A verdadeira paixão da jovem professora (Créditos “Medium”)
A representatividade, nesse sentido, não era apenas uma questão estatística. Para Krissia, tornar-se professora universitária significava mostrar que uma pessoa com uma trajetória pessoal marcada por dificuldades durante a infância e adolescência, principalmente ligadas a questões de saúde de sua família e dela própria.
Enquanto realizava o pós-doutorado em Dublin, começaram a surgir concursos para a carreira acadêmica no Brasil. Colegas e pesquisadores escreveram-lhe para avisar sobre as vagas e incentivá-la a candidatar-se, destacando que seu currículo era competitivo.
Um desses concursos era justamente para a instituição em que havia estudado. A candidatura teve um peso emocional especial. Krissia sentiu-se intimidada e questionou se estaria à altura de regressar como professora. Apesar das inseguranças, candidatou-se e foi aprovada.
Regresso como professora e novos desafios
Krissia ingressou como professora universitária aos 35 anos. Embora já tivesse experiência em pesquisa, pós-doutorados internacionais e contacto com alunos, assumir a responsabilidade por turmas e projetos próprios revelou-se mais desafiante do que imaginava.
Um dos primeiros desafios foi orientar estudantes de graduação. Diferente da experiência de coorientação nos pós-doutorados, Krissia passou a acompanhar alunos que ainda estavam aprendendo os conceitos fundamentais da Física e dando os primeiros passos na investigação científica.
A jovem professora chegou com muita energia e imaginou que poderia orientar rapidamente um grupo grande de alunos. A prática mostrou que formar um grupo de investigação exige tempo, estrutura e acompanhamento cuidadoso. É necessário estimular a formulação de perguntas científicas, a leitura constante de artigos, o domínio das ferramentas de investigação e a organização de resultados. Ela comenta também que, olhando retrospectivamente, atribuiu projetos de pesquisa um tanto ambiciosos aos seus orientandos no primeiro ano na casa. Aos poucos, Krissia vem desenvolvendo estratégias para conciliar expectativas e realidades no desenvolvimento de projetos de pesquisa.
As aulas foram igualmente desafiadoras e trouxeram responsabilidades significativas. A jovem professora assumiu turmas com mais de 90 estudantes, muitos deles calouros recém-chegados à universidade e tendo a sua primeira experiência neste ambiente. Além da quantidade de alunos, ela percebeu diferenças importantes entre sua geração e a atual.
Apoio a estudantes em situação de vulnerabilidade
Além das atividades formais de ensino e pesquisa, a Profª Drª Krissia Zawadzki deseja contribuir com alunos que enfrentam dificuldades econômicas, sociais ou acadêmicas. Sua própria experiência como estudante de origem popular permite-lhe compreender os obstáculos encontrados por jovens que chegam à universidade sem uma rede de apoio. A professora considera necessário criar mecanismos de atenção para estudantes que dependem de assistência estudantil ou que ainda não sabem como aproveitar as oportunidades oferecidas pela instituição.
Uma orientação adequada pode ajudá-los a encontrar caminhos, estabelecer objetivos e aproximar-se dos professores. Para a docente, é importante que o estudante receba apoio antes mesmo de saber exatamente o que perguntar ou a quem recorrer.

Computação quântica (Créditos “Tech Decode”)
Divulgação científica na área quântica
Outro objetivo da professora é ampliar as atividades de extensão e divulgação científica, especialmente na área da Física Quântica. Na avaliação de Krissia, a comunidade científica desse campo ainda não possui uma presença pública tão intensa quanto outros setores da Física.
Grupos de astrofísica, por exemplo, costumam desenvolver projetos amplos de comunicação, produzir materiais acessíveis e manter contacto frequente com o público. Na área quântica, embora exista grande interesse dos estudantes e da sociedade, as iniciativas ainda são mais modestas.
A procura, porém, é crescente. Krissia afirma receber semanalmente vários e-mails de alunos interessados em realizar iniciação científica em temas relacionados à Física Quântica e Computação Quântica. A quantidade de mensagens demonstra que existe uma demanda concreta por formação nesse campo.
Objetivo é consolidar um grupo próprio de pesquisa
Para o futuro, Krissia pretende consolidar uma linha própria de investigação dentro do grupo de Física Teórica. Essa consolidação deverá ser medida pela formação de alunos, pela conclusão de trabalhos de graduação, pela defesa de mestrados e doutorados e pelo crescimento das pesquisas em Computação Quântica.
A professora também aguarda a avaliação de um projeto de financiamento que poderá ajudar na montagem da estrutura necessária. Recursos para bolsas, equipamentos, participação em conferências e contratação de estudantes são fundamentais para que um novo núcleo de investigação possa crescer.
Na área do ensino, ainda ministra disciplinas de acordo com as necessidades do instituto, mas pretende contribuir mais diretamente com a pós-graduação em Computação Quântica e sua aplicação e interface com outras áreas, como, por exemplo, Aprendizado de Máquina. Entre os temas que considera promissores está o aprendizado de máquina quântica, uma área recente que combina conceitos de inteligência artificial e processamento quântico de informações.

“Considero fundamental que o conhecimento produzido com recursos públicos ultrapasse os limites dos laboratórios e das salas de aula. A ciência só cumpre integralmente sua função social quando consegue dialogar com a população, despertar curiosidade e mostrar de que maneira as pesquisas podem influenciar o cotidiano”
Para a professora, as universidades precisam contar com profissionais que possuam conhecimento técnico, maturidade científica e capacidade crítica para abordar esses assuntos. Sem pesquisadores preparados para separar os avanços reais das expectativas exageradas, determinadas áreas podem permanecer estagnadas ou ser conduzidas de forma superficial.
Ciência para além dos muros da universidade
A divulgação científica permanece como uma das metas mais ambiciosas de sua carreira. Krissia já participa de algumas iniciativas, mas gostaria de atuar de forma mais organizada e frequente.
Uma das propostas seria reunir alunos interessados em comunicação científica para produzir materiais voltados às redes sociais. A intenção é traduzir conceitos complexos para uma linguagem acessível, aproximando a Física Quântica de públicos que normalmente não têm acesso a conteúdos especializados.
A professora reconhece, porém, que esse trabalho não é simples. Produzir materiais de qualidade exige tempo, planejamento, conhecimento de comunicação e participação contínua dos estudantes.
Ainda assim, considera fundamental que o conhecimento produzido com recursos públicos ultrapasse os limites dos laboratórios e das salas de aula. A ciência só cumpre integralmente sua função social quando consegue dialogar com a população, despertar curiosidade e mostrar de que maneira as pesquisas podem influenciar o cotidiano.
Como pudemos observar, a trajetória da Profª Krissia reúne perdas familiares, dificuldades pessoais, ensino público, investigação internacional e o regresso à universidade como professora. Mais do que uma história individual de sucesso, seu percurso evidencia o papel transformador das oportunidades educacionais.
A adolescente que decidiu ser professora porque sua escola não tinha docentes de Física tornou-se pesquisadora, realizou quatro pós-doutorados e passou a formar novos cientistas.
Agora, procura usar a experiência acumulada para criar oportunidades semelhantes para estudantes que, como ela no passado, ainda podem acreditar que determinados espaços acadêmicos não foram feitos para eles.
Por todos esses motivos, é um orgulho para a comunidade do IFSC/USP ter docentes como Krissia de Zawadzki.
Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP