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31 de agosto de 2026

Uma passagem de volta para o futuro – Da Suíça ao IFSC/USP numa decisão que mudou a vida de Luís Felipe

A aprovação na USP acabou determinando seu futuro

Professor do IFSC/USP, começou a graduação pensando em Biologia, enfrentou dificuldades com as Ciências Exatas, passou por centros de pesquisa no exterior e retornou à USP para construir uma carreira marcada pela ciência, pelo ensino e pela formação de novos pesquisadores

Aos 36 anos, Luís Felipe Santos Mendes olha para sua trajetória e encontra um percurso que dificilmente poderia ter sido planejado em todos os seus detalhes. Nascido em São José dos Campos (SP) e com a formação escolar realizada em Taubaté (SP), ele chegou à USP interessado principalmente na área de biologia. Anos depois, retornaria ao IFSC/USP onde se graduou e progrediu até chegar a professor e pesquisador.

Entre esses dois momentos estão uma graduação desafiadora, experiências de pesquisa no Brasil e no exterior, um doutorado, o impacto da pandemia sobre sua carreira científica, uma temporada na Suíça e a decisão de atravessar o Atlântico para disputar um concurso que mudaria por completo a sua vida.

Da biologia para a física

No ensino médio, Luís Felipe tinha especial interesse pelas ciências biológicas, principalmente pela biologia molecular. A influência de professores ajudou a definir os primeiros passos do que viria a ser sua escolha profissional. Em 2007, prestou vestibular para biotecnologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no campus de Araras, e também para física biomolecular no IFSC/USP. A aprovação na USP acabou determinando seu caminho.

A escolha por São Carlos teve um componente decisivo: a estrutura oferecida pela USP. Quando iniciou a graduação, em 2008, porém, encontrou um curso muito mais voltado para ciências exatas do que imaginava. Foi um choque para quem chegava à universidade com forte identificação com a biologia.

O primeiro ano foi especialmente difícil. Física e cálculo passaram a ocupar grande parte de sua rotina, enquanto ele ainda precisava aprender uma nova maneira de estudar. A dificuldade chegou a fazê-lo pensar em desistir.

Mas, foi justamente nesse período que começou uma transformação importante: Luís Felipe percebeu que a física poderia ser uma ferramenta poderosa para compreender os fenômenos biológicos que sempre o fascinaram. Aos poucos, passou a gostar também das ciências exatas e no segundo ano de sua graduação já estava convencido de que queria permanecer no curso.

O sonho de ser cientista

Uma certeza, entretanto, existia desde o início: seguir a carreira acadêmica. “Eu queria ser cientista”, afirma Luís Felipe ao recordar o período universitário. Naquele momento, enxergava a universidade como o principal espaço no Brasil para quem desejava desenvolver pesquisa científica.

A aproximação efetiva com a pesquisa ocorreu ainda durante a graduação, por meio da iniciação científica. Trabalhou inicialmente com a Profª Ana Paula Ulian de Araújo e, posteriormente, com o professor Antônio José da Costa Filho (Jabah) no grupo de Biofísica Molecular.

ETH Zurich (Suíça)

Em 2011, sua trajetória ganhou um impulso importante ao receber um prêmio de iniciação científica, que lhe proporcionou uma experiência no exterior. O destino foi o Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH Zurich), na Suíça, marcando seu primeiro estágio internacional.

Era o início de uma carreira científica que passaria por algumas das mais importantes instituições acadêmicas internacionais.

De Ribeirão Preto a Oxford

Depois da graduação, Luís Felipe seguiu para Ribeirão Preto, onde realizou doutorado direto em física aplicada à medicina e biologia. Durante essa etapa, teve também a oportunidade de desenvolver parte de seu trabalho em Oxford, no Reino Unido.

Concluiu o doutorado em 2017 e, no ano seguinte, iniciou o pós-doutorado no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), ligado à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

A trajetória parecia avançar de forma consistente até que, em 2020, a pandemia de Covid-19 atingiu diretamente a rotina dos laboratórios e dos pesquisadores. “Projetos foram interrompidos, laboratórios fecharam e um estágio que já estava encaminhado nos Estados Unidos acabou cancelado. Os anos de 2020 e 2021 foram anos particularmente difíceis para mim, e certamente para muitos outros, com limitações de insumos e paralisação de parte significativa das atividades experimentais”, recorda Luís Felipe.

Quando as atividades começaram a se normalizar, surgiu uma nova oportunidade internacional: outro pós-doutorado na Suíça e foi de lá que veio a decisão que o levaria de volta ao lugar onde sua história acadêmica havia começado.

Um concurso que parecia feito para ele

Em 2022, o IFSC/USP abriu concurso para contratação de docentes. Luís Felipe estava na Suíça e hesitou antes de se inscrever. Questionava se estava realmente preparado para assumir uma posição como professor.

Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP)

O apoio da família e de amigos ligados ao Instituto foi fundamental para a decisão.

Começou então uma preparação intensa. “Durante o dia, mantinha as atividades no laboratório e à noite estudava para a prova teórica. Foram meses de trabalho e preparação para os 18 tópicos previstos no concurso. Paguei a minha própria passagem de avião e retornei ao Brasil praticamente apenas para participar da seleção”, Comenta Luís Felipe, sorrindo.

Entretanto, à medida que estudava o conteúdo, sua a insegurança começou a desaparecer. A formação em Física Biomolecular reunia justamente duas competências exigidas pela seleção: uma sólida base em Física e conhecimentos de Biologia. Os temas estavam diretamente relacionados à sua experiência em biofísica e proteínas. “Esse concurso é para mim, eu preciso prestar”, recorda.

A confiança aumentou a ponto de, ao embarcar para o Brasil, acreditar que retornaria aprovado. E foi o que aconteceu. O processo avançou rapidamente e, em 2023, Luís Felipe ingressou como docente do Instituto de Física de São Carlos (USP).

A descoberta de uma nova paixão

Se a pesquisa científica sempre esteve nos planos, a sala de aula reservava uma surpresa. Luís Felipe nunca havia dado aulas e, ao assumir as primeiras turmas, sentiu-se inexperiente diante da nova responsabilidade. A sensação de insegurança, porém, durou pouco.

Assim que começou a conviver com os estudantes, descobriu algo que não esperava: adorava ensinar. “O aluno passou a ocupar uma posição central na minha atividade de docente e minha preocupação não está apenas na transmissão de conteúdo, mas também na construção de uma relação mais próxima e humana”, destaca o docente.

Um hábito aparentemente simples tornou-se parte dessa aproximação: memorizar os nomes dos estudantes. Luís Felipe percebeu que chamar cada aluno pelo nome ajuda a estabelecer vínculos e faz com que os jovens se sintam reconhecidos dentro da universidade.

De aluno a professor no mesmo curso

Existe ainda um componente simbólico em sua história. Luís Felipe relata ter sido o primeiro formando em física biomolecular a tornar-se docente no IFSC/USP. O fato rapidamente chamou a atenção dos estudantes. Logo no primeiro ano como professor, seis ou sete alunos já o procuravam para desenvolver trabalhos sob sua orientação. Alguns continuam vinculados ao grupo e avançaram para etapas posteriores da formação acadêmica.

“Quero ver meus alunos ocupando posições de destaque”

Aquele estudante que, no primeiro ano da graduação, chegou a pensar em abandonar o curso passou a ser uma referência próxima para jovens que enfrentam os mesmos desafios, e dos docentes mais queridos do IFSC/USP.

O sucesso medido pelo futuro dos alunos

Os planos de Luís Felipe para os próximos anos passam pela consolidação de um grupo de pesquisa com reconhecimento nacional e internacional. Mas, sua definição de sucesso não está limitada à produção científica ou ao prestígio pessoal. “Eu quero ver meus alunos ocupando posições de destaque. Um grupo científico forte deverá ser capaz de preparar pessoas que posteriormente construam suas próprias trajetórias e se destaquem em diferentes instituições e áreas. É nos antigos orientandos espalhados pelo Brasil e pelo mundo que eu espero encontrar, no futuro, uma das medidas do impacto de meu trabalho”, enfatiza o professor. Pesquisa e ensino, portanto, passaram a caminhar juntos. Luís Felipe continua declarando sua paixão pela ciência, mas hoje também pensa em aprimorar constantemente sua didática e sua atuação como professor.

“O curso é difícil, mas vale a pena”

Quando convidado a deixar uma mensagem aos atuais estudantes de Física Biomolecular, Luís Felipe recorre à própria experiência.

Para ele, trata-se de uma formação que oferece possibilidades profissionais muito diversas. Os graduados podem seguir carreira na universidade, mas também encontrar espaço em empresas, bancos, perícia e outras atividades. Ele destaca ainda a presença de ex-alunos ocupando posições relevantes no Brasil e no exterior.

A mensagem é especialmente significativa quando vem de alguém que quase desistiu no início da graduação “O curso é difícil, mas vale a pena chegar até o fim”. É uma conclusão construída a partir da própria experiência de quem precisou aprender a gostar de Física, atravessou diferentes instituições e países e acabou retornando justamente ao lugar onde tudo começou.

O retorno que completou um ciclo

A volta à cidade de São Carlos trouxe ainda uma dimensão pessoal à trajetória. Hoje, Luís Felipe vive na cidade com sua família e considera o nascimento do filho uma de suas maiores conquistas.

Se o nascimento do filho foi uma das maiores conquistas de sua vida, para o Prof. Dr Luís Felipe Santos Mendes seu maior desafio profissional é “ajudar a formar aqueles que escreverão as próximas histórias da ciência”

Depois de anos entre São Carlos, Ribeirão Preto, Oxford e Suíça, ele encontrou no retorno ao IFSC/USP algo maior do que uma oportunidade profissional. “Eu sou muito feliz aqui em São Carlos”, resume. Para o pesquisador, voltar à instituição onde fez sua graduação, agora como professor, acompanhado da família e com novos projetos pela frente, fez com que diferentes partes de sua história finalmente se encontrassem.

A trajetória do Prof. Dr. Luís Felipe Santos Mendes mostra, assim, uma transformação que ultrapassa a passagem de estudante a professor. O jovem atraído pela biologia aprendeu física para compreender melhor a vida, tornou-se cientista, atravessou fronteiras em busca de formação e regressou à universidade onde tudo começou.

Agora, seu desafio é outro “Ajudar a formar aqueles que escreverão as próximas histórias da ciência”, finaliza.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

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