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18 de setembro de 2026

Folhas de oiti ajudam cientistas a criar material capaz de combater bactérias e remover poluentes da água

Licania tomentosa (“iNaturalist”)

Pesquisa com participação de cientistas da USP São Carlos utiliza extrato de uma árvore comum no Brasil para produzir partículas minúsculas de óxido de zinco que apresentaram ação contra bactérias e capacidade de eliminar corantes presentes na água

Uma árvore bastante conhecida das ruas e jardins brasileiros pode contribuir para o desenvolvimento de novas tecnologias para combater a poluição e microrganismos prejudiciais à saúde. Pesquisadores utilizaram folhas do oiti (Licania tomentosa) para produzir partículas extremamente pequenas de óxido de zinco, um material que, nos testes de laboratório, conseguiu tanto degradar substâncias poluentes quanto dificultar o crescimento de diferentes bactérias.

O trabalho reuniu pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), da Universidade Ceuma, no Maranhão, da Universidade Cheikh Anta Diop, no Senegal, e da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Botucatu, um estudo que foi liderado pelo docente e pesquisador do IFSC/USP, Prof. Dr. Igor Polikarpov.

A proposta chama atenção principalmente pela maneira como o material foi produzido. Em vez de depender exclusivamente de processos convencionais que podem consumir muita energia e utilizar produtos químicos prejudiciais ao ambiente, os pesquisadores recorreram ao extrato das folhas do oiti. Esse tipo de abordagem procura tornar a fabricação de materiais muito pequenos mais simples e ambientalmente favorável.

O oiti oferece ainda uma vantagem prática: suas folhas são facilmente encontradas no Brasil, o que pode contribuir para reduzir o custo da matéria-prima. A planta é bastante utilizada na arborização de espaços públicos e possui, em suas folhas, substâncias naturais que ajudam no processo de formação e estabilização das partículas de óxido de zinco.

Dupla ação contra poluição e bactérias

Um dos aspectos mais importantes do estudo foi demonstrar que o material produzido pode desempenhar duas funções diferentes.

A primeira está relacionada à descontaminação da água. Os pesquisadores fizeram experiências com dois corantes, o azul de metileno e o violeta cristal, substâncias utilizadas como modelos de contaminantes. Quando as partículas produzidas com o auxílio das folhas do oiti foram colocadas em contato com esses corantes e expostas à luz ultravioleta, conseguiram decompor grande parte deles.

Nas condições consideradas mais favoráveis pelos pesquisadores, aproximadamente 94% do azul de metileno foi eliminado em 60 minutos. No caso do violeta cristal, a remoção chegou a cerca de 81% em 70 minutos.

Os resultados apontam para uma possível aplicação futura no tratamento de águas contaminadas, especialmente por resíduos provenientes de atividades industriais. Corantes, antibióticos e pesticidas estão entre os contaminantes que preocupam pesquisadores devido à crescente poluição das fontes de água. A presença de microrganismos capazes de provocar doenças representa outro problema importante.

É justamente nesse segundo problema que aparece outra propriedade do material desenvolvido.

Ação contra diferentes bactérias

As partículas de óxido de zinco foram testadas contra diferentes tipos de bactérias, incluindo microrganismos dos grupos de Escherichia coli, Enterococcus faecalis, Klebsiella pneumoniae, Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus.

Os experimentos mostraram que o material foi capaz de dificultar o crescimento dessas bactérias, embora a quantidade necessária para obter o efeito tenha variado de acordo com o microrganismo analisado. Os pesquisadores ressaltam que, para conseguir uma eliminação mais completa das bactérias, foram necessárias concentrações maiores do material.

Outro resultado considerado relevante envolve os chamados biofilmes. Eles podem ser entendidos, de maneira simplificada, como comunidades de bactérias que se fixam em uma superfície e criam uma espécie de camada protetora. Essa organização torna os microrganismos mais difíceis de combater e pode causar problemas tanto na área da saúde quanto em ambientes industriais.

Nos testes realizados, as partículas produzidas com folhas de oiti conseguiram reduzir a formação desses biofilmes. Em uma das bactérias analisadas, Enterococcus faecalis, a redução chegou a aproximadamente 85% na maior concentração testada. No caso de uma linhagem de Staphylococcus aureus, a formação do biofilme foi completamente impedida nas condições avaliadas no experimento.

Uma alternativa mais sustentável

A pesquisa se insere em uma área que busca produzir novos materiais recorrendo a plantas, bactérias e fungos, diminuindo a necessidade de substâncias potencialmente prejudiciais utilizadas em processos tradicionais.

No caso do oiti, compostos naturalmente encontrados nas folhas participam da formação das partículas. Além disso, a disponibilidade da árvore no Brasil pode representar uma vantagem caso a tecnologia avance para etapas posteriores de desenvolvimento. As folhas utilizadas no estudo foram coletadas no Campus-2 da USP em São Carlos, em janeiro de 2025.

Prof. Igor Polikarpov (IFSC/USP)

Os pesquisadores também verificaram a possibilidade de reutilização do material empregado na degradação dos poluentes, característica importante quando se pensa em reduzir custos e resíduos. Em conjunto, os resultados indicam potencial para aplicações no controle de microrganismos, na prevenção de biofilmes e na remoção de determinados contaminantes.

Resultados são promissores, mas ainda são de laboratório

Apesar dos bons resultados, o estudo não significa que as partículas produzidas com folhas de oiti já possam ser utilizadas diretamente em estações de tratamento de água ou em aplicações médicas.

Os próprios pesquisadores destacam que a utilização desse tipo de material em grande escala ainda exige avanços. Será necessário melhorar a padronização da produção, aperfeiçoar a recuperação e a reutilização das partículas e, principalmente, realizar testes com águas residuais reais. Estudos de custos e avaliações que atendam às exigências industriais também serão necessários antes de uma eventual aplicação comercial.

Há ainda uma questão ambiental que precisa ser considerada. Embora o óxido de zinco apresente características interessantes para descontaminação, partículas desse material também podem provocar efeitos indesejáveis em organismos aquáticos e terrestres. Por isso, cada aplicação precisa ser avaliada cuidadosamente antes de sair do laboratório.

O avanço apresentado pelo estudo está justamente na combinação dessas possibilidades: usar uma matéria-prima vegetal abundante no Brasil para ajudar a fabricar um material capaz de atuar tanto sobre determinados poluentes quanto sobre bactérias.

Se os próximos estudos confirmarem sua eficiência e segurança em condições reais, uma árvore conhecida principalmente pela sombra que proporciona nas cidades brasileiras poderá também contribuir para tecnologias voltadas à proteção da água e ao controle de microrganismos.

Confira AQUI o original do artigo científico publicado na revista científica “Processes”.

Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

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