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12 de setembro de 2017

Como os dados ligados ajudaram a descrever ação social na política

Há poucas décadas, o físico Tim Berners-Lee sentiu dificuldade para explicar aos seus colegas a maneira como idealizava acessar e compartilhar conteúdos através de sistemas computacionais. Ele implementou o World Wide Web (WWW), sigla que inserimos no navegador para acessar sites, e os protocolos Hypertext Transfer Protocol – HTTP e Hypertext Markup Language – HTML, que permitem o compartilhamento e acesso a conteúdos online. Mas, hoje, sua dificuldade é outra: convencer as pessoas a compartilharem suas informações.

Para um indivíduo qualquer, estabelecer uma amizade pode ser uma simples interação humana; fazer compras pode lhe parecer uma trivialidade. Mas para Berners-Lee, informações de toda natureza são preciosas, porque podem gerar dados e serem analisadas com o suporte da Inteligência Artificial (IA). Neste contexto, especialistas atualmente utilizam o linked data (dados ligados) para representação de dados e suas inter-relações.

Certa vez, Berners-Lee falou sobre o benefício do compartilhamento e análise de informações, tendo citado, entre alguns exemplos, a área científica. Imagine poder encontrar uma informação de cunho científico para desenvolver uma pesquisa, bastando executar uma simples busca em algum local de fácil acesso na web: “Cura do câncer, entendimento da doença de Alzheimer, compreensão de como ter uma economia mais estável, saber como o mundo funciona. As pessoas que vão resolver isso, os cientistas, têm apenas parte das ideias na cabeça. Eles tentam comunicá-las pela internet. Mas boa parte do conhecimento da humanidade, nesse momento, está nos bancos de dados, nos computadores deles [cientistas], e, realmente, não está sendo compartilhada”, disse ele, que hoje é diretor do World Wide Web Consortium (W3C), uma associação internacional em que pesquisadores e representantes empresariais elaboram recomendações de tecnologias dedicadas à web.

O Dr. Renato Fabbri, pesquisador egresso do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e pós-doutorando do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC/USP), tem contribuições em dados ligados e web semântica (a web de dados ligados). Segundo Fabbri, uma parte expressiva das tecnologias que compõem os navegadores e a web atual passou por discussões no W3C e inclui os dados ligados, que, para ele, são a melhor forma de se publicar informação, quando o intuito é integrá-la ao conhecimento humano e analisá-la com apoio computacional.

Mas, por que usar máquinas na análise de dados? “Porque as máquinas conseguem fazer inferências”, explicou Fabbri. Pense em um jogo de perguntas e respostas. Você faz uma pergunta ao computador, que por sua vez lhe responde com exatidão. Isso é possível se houver algum banco de dados, como a DBpedia – um projeto derivado da enciclopédia online Wikipedia que organiza várias informações referentes a um assunto. Essas informações são descritas em formato RDF, uma linguagem que pode ser “lida” pelas máquinas. Assim, o próprio computador encontra relações entre as informações, permitindo que as acessemos através de hiperlinks.

Imagine um banco de dados alimentado com um número abundante de informações sobre o mundo animal. Grande parte das características dos mais diversos animais (espécies, regiões onde vivem etc.) está classificada ali. Se pesquisássemos, por exemplo, sobre os anfíbios, poderíamos obter diversas relações com base em suas características (que Fabbri e os pesquisadores de dados ligados/web semântica chamam de ontologias): o que são anfíbios, quais anfíbios são sapos e quais não são, onde habitam, do que se alimentam etc.

Segundo Fabbri, essa associação se dá com o uso de triplas. Isso significa que, primeiro, é necessário registrar três termos para que a IA possa relacioná-los com outros assuntos. Utilizando o exemplo dos anfíbios, bastaria registrar no banco de dados que “sapos são anfíbios”. Com base nessa informação, a própria IA relacionaria cada componente dessa sentença com outros termos, podendo nos fornecer características, como as ontologias citadas no parágrafo anterior.

Como os dados ligados foram aplicados na descrição dos mecanismos e das instâncias de participação social na política brasileira

Fabri disse que, no Brasil, os cidadãos podem participar do processo de gestão realizado pelo Estado brasileiro a partir de algumas instâncias e mecanismos previstos em lei: conferência, conselho, consulta pública, comissão, fórum, fórum interconselhos, instância virtual, ouvidoria, mesa de diálogo e mesa de monitoramento. Mas, segundo o pesquisador, o passo a passo da realização de cada instância ou mecanismo não era descrito formalmente.

Em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Presidência da República, o pesquisador atuou como consultor do Governo, tendo, entre diversas atividades, usado os conceitos de dados ligados para descrever as características (ou “alcançar uma conceitualização formalizada”) de cada instância e mecanismo de participação social.

O intuito por trás desse projeto, segundo o especialista, foi abarcar uma parcela maior da população nessas iniciativas e otimizar o trabalho de funcionários envolvidos no gerenciamento dessas atividades governamentais: “Na medida em que temos essas ontologias, conseguimos implementar software para automatizar a formalização das participações”, disse ele, que desenvolveu esse projeto, em paralelo à realização de seu doutorado no IFSC/USP, em 2014.

De acordo com o pesquisador, a criação de uma única ontologia pode durar o período de um doutorado, que por sua vez pode ser concluído em cerca de cinco anos. Para entender o passo a passo dessas ações sociais e desenvolver as ontologias, Renato se reuniu com autoridades e especialistas do alto escalão do Governo, tendo, em seguida, organizado as informações em um banco de dados.

Agora, com o apoio de IA, essas informações estão associadas por meio de hiperlinks, podendo ser conferidas AQUI.

A relação entre os mecanismos e instâncias também foi ilustrada em diagramas. Acesse-os AQUI.

Assessoria de Comunicação – IFSC/USP

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Instituto de Física de São Carlos - IFSC Universidade de São Paulo - USP
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