
“Durante o meu mestrado percebi que a carreira acadêmica poderia deixar de ser apenas uma possibilidade para se transformar em um verdadeiro projeto de vida“
Professor do IFSC/USP construiu uma trajetória marcada pela decisão tardia em ingressar na universidade, pela pesquisa em doenças tropicais negligenciadas e por uma convicção: “Sem formação de pessoas, disposição para assumir riscos e investimentos de longo prazo, o Brasil continuará distante do protagonismo mundial no desenvolvimento de novos medicamentos”.
A trajetória acadêmica do docente Prof. Leonardo Luíz Gomes Ferreira não começou de maneira linear nem foi resultado de uma decisão tomada ainda nos bancos escolares. Nascido em São Carlos, ele concluiu o ensino médio na tradicional escola pública Doutor Álvaro Guião e, antes de chegar à universidade, passou alguns anos trabalhando na iniciativa privada. “De fato, eu pretendia cursar o ensino superior, mas precisava descobrir qual caminho seguir, precisava ter a certeza”, comenta o docente.
A escolha acabou recaindo sobre as ciências biomédicas. Como o curso não existia em São Carlos, Leonardo ingressou na Universidade de Araraquara (Uniara), onde encontrou uma formação que transitava entre a biologia, química e física. Foi nesse ambiente que começou a se interessar particularmente por uma questão que acabaria definindo sua vida profissional: como as moléculas interagem com um sistema tão complexo quanto o corpo humano.
Essa curiosidade científica o conduziu ao Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP). Ao conhecer o programa de Pós-Graduação em Física Biomolecular e, especialmente, a linha de pesquisa em Química Medicinal, Leonardo Ferreira encontrou o campo no qual viria a construir sua carreira. Ingressou no mestrado, sob orientação do Prof. Dr. Adriano Andricopulo, defendeu a dissertação em 2007 e, no ano seguinte, também sob orientação do Prof. Adriano, iniciou o doutorado, concluído em 2013. Foi ainda durante o mestrado que percebeu que a carreira acadêmica poderia deixar de ser apenas uma possibilidade para se transformar em projeto de vida.
Ciência voltada para doenças negligenciadas
A consolidação de sua atuação científica ocorreu em uma área que expõe não apenas os desafios da medicina, mas também profundas desigualdades econômicas e sociais: o desenvolvimento de medicamentos para doenças tropicais negligenciadas.
Em 2013, o Laboratório de Química Medicinal e Computacional do IFSC já mantinha parcerias com organizações não governamentais envolvidas no desenvolvimento de fármacos. Surgiu então a oportunidade para Leonardo Ferreira realizar um pós-doutorado direcionado a doenças como Chagas e Leishmanioses, sob supervisão do Prof. Dr. Glaucius Oliva (IFSC/USP).
“Essa experiência ampliou minha aproximação com organizações internacionais e com a indústria farmacêutica. Em 2017 realizei um estágio na Universidade da Antuérpia (no Laboratório de Microbiologia, Parasitologia e Higiene), na Bélgica, sob a supervisão do Prof. Dr. Louis Maes, onde tive contato com novas tecnologias aplicadas ao desenvolvimento de medicamentos para Leishmanioses, sendo que trouxe esse conhecimento para o IFSC/USP”, recorda Leonardo. O período de seu pós-doutorado se estendeu até o concurso para professor, realizado em 2022. Em fevereiro de 2023, iniciou formalmente suas atividades docentes no IFSC/USP.

Mais do que uma especialidade científica, o trabalho com doenças negligenciadas coloca diante do pesquisador uma questão incômoda: por que enfermidades que atingem milhões de pessoas não recebem a atenção esperada por parte das grandes indústrias e dos laboratórios de ponta?
“Essas doenças tropicais negligenciadas atingem principalmente populações do chamado Sul Global, sobretudo em regiões da Ásia, África e América Latina, embora algumas delas já avancem também para países europeus e para os Estados Unidos. São enfermidades que afetam, em grande medida, pessoas social e economicamente vulneráveis e é justamente aí que surge um dos problemas estruturais. O desenvolvimento de um medicamento pode exigir investimentos extremamente elevados. Para empresas que precisam recuperar os recursos empregados na pesquisa, mercados formados majoritariamente por populações de baixo poder aquisitivo tendem a ser menos atraentes. Nesse cenário, é fundamental as parcerias existentes entre universidades, organizações não governamentais e empresas farmacêuticas para tornar possíveis pesquisas que dificilmente avançariam apenas pela lógica convencional do mercado”, sublinha o docente.
Segundo o pesquisador, a participação da indústria nessas iniciativas pode representar também uma forma de contribuição social que ultrapassa a busca imediata pelo lucro. Algumas empresas, afirma, encaram esse envolvimento como uma espécie de obrigação moral e de retorno à sociedade.
A responsabilidade de formar pessoas

“Meu sonho como pesquisador é fazer com que o Brasil seja um player internacional importante no desenvolvimento radical de fármacos”
A chegada à docência acrescentou outra dimensão à carreira de Leonardo Ferreira. Se no laboratório o desafio é compreender fenômenos complexos e procurar moléculas capazes de se transformarem, algum dia, em medicamentos, já na sala de aula a responsabilidade é outra: formar quem fará a ciência das próximas décadas, e Leonardo Ferreira trata essa tarefa com muita seriedade. “Ter me tornado professor significou perceber a dimensão da influência que um docente exerce sobre a formação e sobre as escolhas profissionais dos estudantes. Considero cada aula uma grande responsabilidade, justamente porque sei que participo diretamente da formação de jovens que ainda estão construindo seus caminhos”, destaca o professor.
Na graduação, identifica um desafio particular: muitos estudantes ainda não sabem exatamente o que querem profissionalmente. Isso, entretanto, não o desanima. Ao contrário. Leonardo Ferreira afirma sentir-se estimulado pela possibilidade de despertar o interesse dos alunos e procura dar o máximo em suas aulas para tornar o conhecimento atraente e significativo.
Na pós-graduação, a questão assume outra dimensão. Para ele, é necessário ensinar aos novos pesquisadores que a ciência contemporânea não cabe dentro de fronteiras rígidas.
Química, física, biologia, bioquímica e biofísica precisam dialogar porque os grandes problemas científicos não respeitam divisões administrativas ou acadêmicas. “A natureza, simplesmente apresenta os desafios. Cabe aos pesquisadores reunir diferentes conhecimentos para enfrentá-los. Por isso, considero fundamental que os pós-graduandos desenvolvam uma visão multidisciplinar e transdisciplinar, independentemente de seguirem posteriormente para empresas ou instituições públicas de pesquisa”, observa Leonardo.
O Brasil e o risco de inovar
É quando olha para o futuro, porém, que o discurso de Leonardo Ferreira ganha contornos particularmente firmes.
Seu objetivo é contribuir para que o Brasil deixe de ocupar uma posição secundária no desenvolvimento de medicamentos verdadeiramente inovadores.
O pesquisador reconhece a competência brasileira no desenvolvimento de novas formulações e medicamentos genéricos. O problema, segundo ele, está na chamada inovação radical: a capacidade de desenvolver novos fármacos desde as etapas iniciais de pesquisa, assumindo os elevados custos, o longo tempo necessário e, sobretudo, o risco de fracasso.
“Meu sonho como pesquisador é fazer com que o Brasil seja um player internacional importante no desenvolvimento radical de fármacos. Não se trata de uma meta simples. Desenvolver um medicamento é um processo longo e complexo, justamente porque a ciência ainda está distante de compreender integralmente o funcionamento do corpo humano. Diferentemente de outros produtos tecnológicos, um novo fármaco enfrenta variáveis biológicas que nem sempre podem ser previstas ou controladas. Por isso, o primeiro investimento necessário é humano: formar pessoas altamente qualificadas, capazes de compreender a complexidade desse processo e, principalmente, preparadas para não desistir diante dos fracassos, destaca o professor.

Para Leonardo Ferreira, a pesquisa farmacêutica pode consumir anos sem produzir o resultado esperado. Grandes companhias multinacionais estão mais preparadas para absorver essas perdas. Na sua avaliação, a indústria brasileira ainda demonstra maior aversão ao risco associado à inovação radical. E esse é um obstáculo importante: inovar custa caro e não existe garantia de retorno. A questão central, portanto, está também na maneira como a sociedade, as empresas e as instituições encaram a ciência
Pesquisa é gasto ou investimento?
Para o docente a resposta não admite hesitação: é investimento. O problema é que, diante da possibilidade concreta de insucesso, muitas vezes os recursos destinados à pesquisa são interpretados como despesas desnecessárias. Na ciência de fronteira, entretanto, o fracasso faz parte do próprio processo de construção do conhecimento. O sucesso não é imediato — e muitas vezes sequer chega.
“A ciência vale a pena”
Depois de uma trajetória que passou pela escola pública, pela iniciativa privada, pela graduação em outra cidade, pelo mestrado, doutorado, pós-doutorado, experiência internacional, pesquisa de medicamentos e, finalmente, pela docência na USP, o Prof. Leonardo Ferreira resume sua visão sobre a carreira científica em uma frase curta: “A ciência vale a pena.”

“Que lugar o nosso País pretende ocupar na ciência das próximas décadas?”
Não se trata, em seu discurso, de uma visão idealizada. Ferreira reconhece explicitamente o preço dessa escolha. São anos de estudo e dedicação, eventualmente décadas. O retorno dificilmente é imediato. A recompensa financeira pode não ser comparável à de outras carreiras. O pesquisador precisa conviver com incertezas e com a possibilidade de dedicar anos a uma hipótese que, ao final, não produzirá o resultado esperado. Ainda assim, sua mensagem aos estudantes é de persistência.
Para o professor, quem consegue descobrir aquilo que verdadeiramente gosta de fazer dentro da ciência pode construir uma vida profissional marcada não apenas pelo trabalho, mas pelo sentido de realização. Ciência, em sua concepção, exige conhecimento e rigor, mas exige também dedicação e paixão. É uma mensagem coerente com sua própria trajetória.
Leonardo Ferreira não saiu do ensino médio diretamente para uma carreira acadêmica previamente desenhada. Trabalhou, escolheu, mudou de ambiente, aprofundou sua formação, aproximou-se de problemas científicos cada vez mais complexos e chegou à docência depois de anos dedicados à pesquisa. Agora, seu desafio ultrapassa a própria carreira.
Ao defender a formação de novos pesquisadores, o investimento em inovação radical e uma participação mais ambiciosa do Brasil no desenvolvimento mundial de medicamentos, Leonardo Ferreira coloca no centro do debate uma questão que transcende os laboratórios: “Que lugar o nosso País pretende ocupar na ciência das próximas décadas? A resposta dependerá de financiamento, universidades, empresas, políticas de inovação e infraestrutura. Mas, dependerá, sobretudo, de pessoas dispostas a aceitar algo que eu aprendi ao longo de minha própria trajetória: na ciência, resultados importantes raramente surgem de imediato. É preciso conhecimento. É preciso investimento. É preciso aceitar riscos. E, acima de tudo, é preciso persistir”, conclui o docente.
Rui Sintra – Assessoria de Comunicação – IFSC/USP



